Textos de Arqueologia

ARTIGOS SOBRE ARQUEOLOGIA

Permito a transcrição, no todo ou em parte, dos textos que se seguem, desde que citada a sua origem/  I allow the transcription, in all or part, of the texts included in this webpage, if quoted from the original

 

CLETO, Joel - Arqueologia: a última palavra. Porto Património Mundial. CRUARB 25 anos de reabilitação urbana. Porto: Câmara Municipal, 2001. p.232-239) (traduzido para inglês e francês)


“(...) Mas (a Arqueologia), que estuda os testemunhos materiais da acção humana, está particularmente atenta aos gestos anónimos, às vozes sussurradas que, por detrás dos grandes feitos e das figuras que têm um rosto e um nome, perfilam o clamor longínquo da grande aventura da Humanidade.”
Vítor Oliveira Jorge, 1987

“A arqueologia não pára onde começa a escrita. (...) a marca do quotidiano, o arqueosítio são muitas vezes o único meio para acedermos à mensagem daqueles para quem a oralidade foi a única memória.”
Cláudio Torres, 1989

“(As) origens (do povoamento do morro da Sé) são muito mais complexas do que a estafada dicotomia  imposta pela análise das fontes latinas e mediévicas. Caberá agora à arqueologia a última palavra.”
Manuel Luís Real, 1984


Com uma ocupação humana que se prolonga de forma contínua e comprovada desde há mais de 2500 anos, a face visível do centro histórico da cidade do Porto – Património Cultural da Humanidade – é hoje, necessariamente, o resultado do somatório de séculos de intervenção do Homem neste espaço. Mas, para lá do que os nossos olhos podem contemplar na actualidade, há como que uma outra dimensão que dá forma ao que nos é contemporâneo e real. Esse reino, de uma aparente invisibilidade, é o da Arqueologia.
O espaço do que é hoje uma modesta casa de habitação perfeitamente integrada na malha urbana do centro histórico, pode ter sido no passado como que arrabalde do povoado que há mais de dois mil anos, durante a Idade do Ferro, se desenvolvia no topo do morro da Sé. Mais tarde transformado em lixeira, quando a ocupação romana alargou de uma
forma significativa os limites da povoação, este mesmo espaço pode ter albergado posteriormente, durante a Idade Média, algumas das muralhas que ciclicamente refaziam as fronteiras do burgo ou então as hortas de um convento existente nas proximidades. Ao longo dos tempos este mesmo espaço pode ter servido, também, de palco à construção e remodelação de sucessivas construções destinadas a habitação ou a actividades artesanais. E assim, quando hoje contemplamos a singela fachada do edifício existente no local, há toda essa dimensão de invisibilidade
histórica que nos escapa e que, no entanto, não deixa de fazer parte desta herança patrimonial da Humanidade.  Mais do que uma simples parte, a aproximação e o conhecimento dessa dimensão é mesmo insubstituível se não quisermos fazer do Centro Histórico um mero, estático e bonito cenário para consumo turístico. As cidades, mesmo
aquelas que se encontram classificadas como Património da Humanidade, são seres vivos feitos de contínuas destruições e reconstruções. Não se pode entender e explicar a cidade de Hoje, a sua paisagem e os seus lugares, sem o conhecimento do seu Passado, o das suas construções e o das suas gentes. Mais do que os grandes nomes e os grandes feitos históricos a que anda associado o Porto, o que está aqui em causa é o conhecimento da evolução da própria povoação, e o do dinamismo económico e social, usos, costumes e os desafios das centenas de anónimas gerações que construíram efectivamente a cidade.
E assim, quando na actualidade tanto se fala (e se actua) na regeneração do centro histórico do Porto, facilmente se entenderá a importância que os estudos arqueológicos possuem. Eles são, num momento sem paralelo na história da cidade em que tanto se mexe (e necessariamente se acaba por destruir) no subsolo, uma oportunidade única de melhor conhecermos e enter esta cidade. Eles poderão, em muitos casos, dar a última palavra... E têm dado. Com efeito, e em grande parte resultado do acelerar do processo de requalificação urbana registado no Centro Histórico (a que a própria candidatura da cidade ao estatuto de Património da Humanidade outorgado pela UNESCO não foi alheia), a investigação arqueológicaregistou  no Porto durante a última década e meia um assinalável conjunto de intervenções que, de certo modo, obrigam a rescrever a história da cidade. Efectivamente muito se evoluiu desde que, em 1983, o percursor da aplicação no Porto dos modernos métodos e análises da Arqueologia, Manuel Real, se via constrangido a afirmar que “falar de arqueologia portuense poderia parecer, hoje em dia, um mero exercício de retórica, tal é o divórcio que tem existido na Cidade em relação a estes problemas” (Actas..., 1983, 2).
Quinze anos depois e após várias dezenas de intervenções arqueológicas no Centro Histórico, e apesar da amostra ser apenas uma ínfima parte do vasto potencial arqueológico do Porto, é agora possível comprovar com segurança o que então eram apenas conjecturas ou afirmar realidades então inimagináveis. E, não esquecendo as preciosas informações e conhecimentos que foi possível retirar de escavações arqueológicas em locais menos “nobres” (como no arranjo de pavimentos e canalizações nalgumas artérias ou na abertura de alicerces na sequência de profundas intervenções estruturais em antigos e modestos edifícios)  o percurso histórico e arqueológico do Centro Histórico
pode ser feito através de alguns locais mais emblemáticos: osarqueo-sítios das casas da Rua D. Hugo nº5 (com uma fabulosa sequência estratigráfica do séc. XIX ao séc. IV a. C), ou da Rua de Santana (com estruturas atribuíveis à Idade do Ferro, romanas e vestígios de diferentes muralhas), a nova praça que culmina a Viela do Anjo, a antiga e medieval Casa da Câmara, a  Casa do Infante (não só com elucidativos vestígios do dinamismo económico e comercial do Porto da Idade Média e Moderna, mas igualmente com surpreendentes testemunhos da ocupação romana na área ribeirinha)...
Graças a estas intervenções o nosso conhecimento sobre a história da cidade e das suas populações é hoje indiscutivelmente maior, desde a mais remota antiguidade até períodos bem mais recentes, relacionados com o processo de industrialização da cidade ou com o próprio declínio e degradação do seu núcleo antigo ao longo do século XX. Hoje já é possível formular com grande segurança um coerente modelo cronológico e espacial da ocupação do actual espaço urbano desde épocas proto-históricas. Alguns achados de cerâmica indígena permitem-nos, mesmo, apontar para um início da ocupação no morro da Sé ainda durante o Bronze Final, nos inícios do 1º milénio a. C. Uma intensa e alargada ocupação castreja do morro, durante a Idade do Ferro, está também comprovada em numerosos achados cerâmicos, metálicos e em vestígios de habitações, que nos demonstram uma utilização particularmente contínua desde o século IV a.  C. Esta facto, associado a uma evidente e intensa romanização do povoado, desde o século I, vem provar o quanto foi estéril e inútil a polémica alimentada durante anos sobre a margem em que se situaria Cale. Afinal a arqueologia demonstrou, nestes últimos anos, com os importantes achados de um lado e outro do Douro que neste caso, como em tantos outros, mais do que separar o rio une as suas margens. O Porto, tal como Gaia, nasceram do rio em épocas remotas e através dele sempre se terão articulado e afirmado. De resto, uma das mais surpreendentes revelações da arqueologia portuense nos últimos anos foi a importância e volume dos vestígios romanos que, do alto do povoado, se estendem para a zona ribeirinha, revelando esta uma intensa ocupação romana, que assume particular destaque numa época já relativamente tardia entre os séculos IV e VI.
O conturbado período que se segue ao fim da dominação romana, durante
o qual o Porto serve de palco a significativas e destrutivas lutas civis no seio do reino suevo e, posteriormente, com a conquista visigoda, está também testemunhado arqueologicamente. Aliás, os achados dos últimos anos têm permitido alguns estudos que possibilitarão um melhor conhecimento do período alti-medieval de toda
a região. Como, de resto, para toda a Idade Média e Moderna, períodos para os quais os vestígios e artefactos recolhidos são em grande abundância. Os trabalhos efectuados permitirão, igualmente, um cabal conhecimento do ritmo de construção e dos circuitos e limites das várias cinturas de muralhas que, desde a Idade do Ferro até à Baixa Idade Média, passando pelos amuralhamentos de época romana e pela cerca pré-românica, cercaram o Porto.
Independentemente da continuação dos trabalhos de escavação durante os próximos anos, o volume de informação recolhida durante a última década e meia assegurará que os nossos conhecimentos sobre a evolução
da cidade e das suas gentes continuarão a registar-se. Com efeito os trabalhos e conhecimentos da arqueologia não se esgotam na escavação e no estudo das estruturas detectadas. Segue-se-lhe todo um complexo e moroso trabalho de análise dos objectos recolhidos (que são já muitas centenas de milhar) que pode demorar vários anos. Um trabalho de laboratório meticuloso que, talvez por ser menos imediato e mediático, é menos conhecido, fornecendo no entanto, regra geral, muitos mais dados e conhecimentos. Há, pois, muito ainda a esperar das escavações arqueológicas realizadas nos últimos anos.
Escavações que envolveram um grande número de entidades oficiais com responsabilidade na gestão urbanística da cidade e, particularmente, da área do Centro Histórico e do perímetro classificado como Património Cultural da Humanidade, entidades essas que entenderam e apoiaram a necessidade do estudo dessa dimensão que só aparentemente é invisível, mas afinal tão imprescindível, que é a Arqueologia.
Contudo, além  das entidades com responsabilidades nesta área, nomeadamente a Câmara Municipal do Porto (através do CRUARB/Projecto Municipal para a Renovação Urbana do Centro Histórico do Porto e com a
posterior constituição do Gabinete de Arqueologia Urbana e do “Projecto Piloto Urbano em Centro Histórico Habitado”) e o InstitutoPortuguês do Património Arquitectónico e, mais recentemente, o Instituto Português de Arqueologia, além destas entidades oficiais, não se poderá esquecer que o grande desenvolvimento da arqueologia portuense registado nos últimos anos foi suportado também, do ponto de vista financeiro, por muitas entidades particulares, nomeadamente as empresas construtoras que, desenvolvendo intervenções no Centro Histórico, vêm assegurando equipas de arqueologia que, nalguns casos, se prolongam durante vários anos.
Indispensável ao desenvolvimento do trabalho arqueológico vem sendo igualmente, em muitos casos, o interesse que a população local demonstra pelos trabalhos e achados arqueológicos. Olhados inicialmente com desconfiança pela população, os arqueólogos passaram a ser vistos e entendidos como gente que, despertando o interesse e
valorizando o local onde habitavam, contribuíam afinal para a sua auto-estima e para a qualidade de vida do local. É também para esta função social que a Arqueologia deverá contribuir com a última palavra.

Joel Alves C. Cleto


Actas do Seminário de Arqueologia Portuense, 1983. Arqueologia. 10 (1984) p.1-88.
Teresa Pires CARVALHO, Carlos GUIMARÃES e Mário BARROCA – Bairro da Sé do Porto. Contributo para a sua caracterização histórica. Porto: Câmara Municipal/CRUARB, 1996.
Maria Isabel Pinto OSÓRIO (coord.) – O Porto das mil idades. Arqueologia na Cidade. Porto: Câmara Municipal, 1993. 42 p.
Manuel Luís REAL et al. – Escavações arqueológicas no Morro da Sé. Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto. 2ª série, vol. 3/4 (1985-86) p.7-44.
Manuel Luís REAL, Paulo Dordio GOMES, Ricardo TEIXEIRA e Rosário MELO – A Tradicional Casa do Infante. Henrique, O Navegador (dir. Manuel REAL). Porto: Câmara Municipal, 1994. p. 134-195.