Textos sobre Ramalde

ARTIGOS SOBRE RAMALDE

Permito a transcrição, no todo ou em parte, dos textos que se seguem, desde que citada a sua origem:

 

O Carvalhido ou Praça do Exército Libertador

A PRIMEIRA NOITE DE UM NOVO PORTUGAL

Texto: Joel Cleto (in Jornal de Ramalde.3ª série, nº10. Porto, 24 de Janeiro 2002, p.2)

No fim da tarde de 8 de Julho de 1832 um exército de sete mil e quinhentos homens, cansado mas entusiasmado e confiante, monta acampamento às portas da cidade do Porto. O local escolhido é o Largo do Carvalhido, na estrada do Porto à Póvoa. Os risos e queixumes dos homens misturavam-se com o relinchar dos cavalos, com o ruído metálico do pousar das armas e com o crepitar da lenha nas diversas fogueiras que ardiam no largo. Caía a noite. Para o Carvalhido, e para o resto do país, esta era a primeira noite de um “novo” Portugal, mais livre e democrático, que começara a nascer nesse dia...

O período que decorre entre o Desembarque do Exército Libertador, na Praia de Pampelido (hoje da Memória), em Perafita, em 8 de Julho de 1832, e o fim do Cerco do Porto, um ano depois, é uma fase crucial da História Contemporânea de Portugal. Foi, aliás, classificada por Almeida Garrett como o período durante o qual “o Portugal velho acaba e o novo começa”. Com efeito, é durante esse ano que, definitivamente, o regime absolutista é derrotado no nosso país, abrindo o caminho a um Estado mais livre e democrático. Mas, recuemos um pouco...

Os ideais da Revolução Francesa de 1789, de Liberdade, Igualdade, Fraternidade, pugnando pelo fim dos regimes senhoriais e ditatoriais  defensores da ideia do rei absoluto, detentor de todo o poder, espalham-se rapidamente por todo o continente europeu, como fogo em palha seca no Verão. Em Portugal  estas novas ideias liberais triunfam com a Revolução de 1820, com origem no Porto. O rei João VI, até aí exilado no Brasil  a pretexto das Invasões Francesas ocorridas poucos anos antes, regressa ao país e jura a Constituição resultante da revolução liberal. Com a sua morte, pouco depois, em 1826, deveria assumir o trono o seu filho D. Pedro IV, um convicto liberal. Este, contudo, porque é o Imperador do Brasil, cuja independência havia sido reconhecida por Portugal no ano anterior, abdica da coroa portuguesa em favor de sua filha D. Maria da Glória. Porém, e porque esta é menor, D. Pedro confia a regência do Reino ao seu irmão infante D. Miguel apesar deste ser um reconhecido antiliberal e ter estado envolvido em movimentos de oposição ao regime que lhe valeram, de resto, o desterro para Viena de Áustria. D. Miguel, no entanto, jura fidelidade à Carta Constitucional e a D. Pedro demonstrando estar disponível para assumir a regência do reino durante a menoridade de D. Maria. Mas, logo em 1828, um golpe de estado absolutista demonstra as verdadeiras intenções do regente que dissolve as cortes e se proclama rei absoluto. A legislação liberal é posta em causa e instaura-se um regime de terror que persegue, exila e mata os defensores dos ideais do liberalismo.

A Guerra Civil torna-se inevitável. Em 1831 D. Pedro abdica pela segunda vez na sua vida de uma coroa – desta vez da brasileira – e regressa à Europa com o  objectivo de restabelecer em Portugal o regime liberal e democrático. Para tal organiza um exército que, partindo dos Açores, desembarcará na Praia de Pampelido em 8 de Julho de 1832, com o objectivo de alcançar o Porto (cidade de forte tradição liberal) e daí avançar para o resto do país.

É este exército, que ficará conhecido pela História como “os sete mil e quinhentos bravos do Mindelo” ou “Exército Libertador”, que monta acampamento na noite de 8 de Julho no Largo do Carvalhido, às portas da cidade do Porto. Local estratégico, onde a importante estrada do Porto à Póvoa, de orientação Norte-Sul, cruzava com caminhos mais secundários, mas nem por isso insignificantes, como eram aqueles que conduziam para o Monte Pedral e a Arca d’Água a nascente, e Francos, Ramalde e Carcereira a poente, o Largo do Carvalhido era já nessa altura, como hoje, o local de confluência de três freguesias: Ramalde, Cedofeita e Paranhos. Olhando para antigas plantas do local, e face ao aspecto mais urbanizado que o largo já apresentaria dos lados de Cedofeita e Paranhos, é de admitir que grande parte do exército tenha montado o acampamento do lado de Ramalde, nomeadamente nos terrenos da antiquíssima Quinta da Prelada, dos Noronha de Menezes, que então se alongava até estas paragens.

Após a noite, que se presume bem passada uma vez que as tropas fieis a D. Miguel não ensaiaram qualquer ataque, o acampamento foi levantado na manhã do dia seguinte, tendo o “Exército Libertador” prosseguido a sua avançada em direcção à cidade pela rua (então estrada) que haveria de tomar como nome a data desse dia: 9 de Julho.

O resto da história é já de todos conhecida. Seguiu-se  uma entrada triunfal dos 7.500 “bravos” num Porto que os recebeu em festa. O facto dos militares miguelistas terem abandonado a cidade antes da entrada dos liberais contribuiu, igualmente, para o ambiente festivo e para o facto dos homens do Exército Libertador terem entrado na cidade com as baionetas das suas armas enfeitadas com hortênsias (curiosa tradição esta, dos portugueses, de fazerem das suas revoluções festas floridas nas pontas das espingardas!). Mas foi festa por muito pouco tempo. Rapidamente reorganizadas as forças absolutistas acabaram por cercar a cidade e o Exército Libertador, dando início ao famoso “Cerco do Porto” que durou sensivelmente um ano. Durante esse período decisivo, a freguesia de Ramalde, nos arrabaldes da cidade, foi muitas vezes “terra de ninguém” e palco privilegiado de múltiplos embates entre os liberais que procuravam romper o cerco e os sitiantes absolutistas que não desistiam de (re)tomar a cidade e derrotar D, Pedro. Foi, aliás, em território desta freguesia que se desenrolaram muitos dos principais acontecimentos da decisiva noite de 18 de Agosto de 1833 quando, finalmente, os liberais conseguiram acabar com o cerco e partir para a decisiva vitória sobre D. Miguel  e o absolutismo.

Para trás ficava uma página heróica e muito dorida da cidade do Porto que perpetuou muitos principais lugares e acontecimentos desse ano na sua toponímia. Caso, entre outros, das ruas da Alegria, 9 de Julho, da Travagem, do Cerco do Porto, ou da... Praça do Exército Libertador, assim designada por deliberação da Câmara Municipal do Porto de 28 de Outubro de 1835. Desaparecia assim o topónimo que, durante séculos, designara o local: o largo, cruzamento ou campo do Carvalhido. Desaparecia oficialmente porque, na prática, esta era uma designação de tal forma arreigada entre a população que, quase 170 anos depois, ainda hoje é esse o nome pelo qual é habitualmente referenciado pela generalidade da população da freguesia e da cidade.

Quanto à origem e explicação deste antigo topónimo, remetemos o leitor para o nosso próximo artigo no qual abordaremos a Rua do Carvalhido.

 

Rua do Carvalhido

MEMÓRIA DAS MATAS

Texto: Joel Cleto (in Jornal de Ramalde.3ª série, nº11. Porto, 8 de Fevereiro 2002, p.2)

Recuemos hipoteticamente a 1750. A um dia quente de Outono. Daqueles característicos do “Verão de S. Martinho” que não deixam, contudo, de evocar o tempo frio que se aproxima. Em Ramalde, mais precisamente no largo do Carvalhido, os senhores da Quinta da Prelada, na companhia de outros fidalgos, preparam-se para, montados nos seus cavalos, se embrenhar na vasta e densa mata que se desenvolve a norte, local onde se refugiam várias espécies animais, entre as quais a raposa e o javali, e sobre a qual o pároco de Ramalde escreverá, oito anos depois, ser “capáz para cassa grossa” (Memórias Paroquiais, 1758).

Do largo parte, por entre a mata, um antigo caminho: o do Carvalhido. É por ele, e protegidos pelas sombras das árvores, que os fidalgos caçadores penetram nesse ensolarado dia, cruzando-se com dois ronçosos e pesados carros de bois que, carregados de lenha  e de fetos, tojo, urze e giestas, recolhidos na mata para a “cama do gado”, vão anunciando a sua proximidade pelo característico chiar das rodas.

Duzentos e cinquenta anos depois, deste cenário e da importância económica que as matas possuíam para as comunidades dos arrabaldes do Porto, pouco nos resta. A rua do Carvalhido, pela sua designação, é uma das raras Memórias das matas de Ramalde e da cidade.

Durante séculos Ramalde, freguesia do julgado de Bouças (topónimo já por si sugestivo), nos arrabaldes do Porto, foi conhecida pela riqueza e produtividade agrícola das suas terras. Dela escrevia, em 1878 Pinho Leal, ser “(...) uma vasta, formosa, rica e fértil freguezia...”. Terra de grande produção de milho, aqui se produzia igualmente trigo, centeio, alguma cevada e uma grande variedade de produtos hortícolas. Famosa era também a sua produção de gado, nomeadamente dos famosos bois de raça arouquesa, registando-se mesmo, no século XIX, a sua exportação para Inglaterra.

Não obstante a abundância e extensão das suas áreas agrícolas, a paisagem de Ramalde não deixou de reflectir, desde a Idade Média até ao início do século XX, a tradicional e tripartida organização espacial e territorial do Entre-Douro-e-Minho: as áreas mais humanizadas coincidentes com as aldeias ou os espaços habitacionais com todas as estruturas de apoio que as cercavam, onde se incluíam as hortas e os espaços dedicados aos animais de criação; as áreas agrícolas, de cultivo; e, finalmente, os soutos – territórios periféricos, muitas vezes baldios, pouco humanizados, contrapondo-se à retalhadíssima área agrícola. Desempenhando um papel importante no equilíbrio do ecossistema, estas manchas verde-negras matizadas a ouro pelo tojo florido, permitiam que a natureza se desenvolvesse de uma forma mais espontânea e livre, dando lugar a mais ou menos extensos bosques e matas constituídos fundamentalmente por carvalhos, castanheiros, alguns sobreiros, além – claro está – do pinheiro que há já muitos séculos fez a sua aparição por estas zonas. Apesar da sua aparente “inutilidade” aos nossos olhos, estas áreas eram fundamentais na economia tradicional das comunidades. Com efeito era aí que, na sua maioria, as populações recorriam para obterem um sem número de produtos essenciais e aí encontravam também uma importante fonte de rendimentos. Nessas matas obtinham as madeiras imprescindíveis para as suas construções, a lenha que alimentava fornos e lareiras, a vegetação necessária para as “camas do gado” e para muitos outros usos diários e utilitários, e aí se localizava igualmente uma boa parte das espécies cinegéticas.

Com o desenvolvimento urbanístico e industrial de Ramalde desde o século XIX, os soutos, matas e bouças da freguesia foram desaparecendo paulatinamente. Deles apenas resta, nos nossos dias, e transformado no Parque de Campismo da cidade, uma ínfima parte daquela que foi a extensa e densa mata da Prelada – a tal que ainda em 1758, e na posse dos Noronha de Menezes, senhores da Casa e Quinta da Prelada, abrigava animais de caça de grande porte. Desta antiga e vasta mata ficou-nos também um outro vestígio: a designação Carvalhido que ainda hoje denomina esta área e, nomeadamente, uma rua. Troço da antiga estrada do Porto à Póvoa, a Rua do Carvalhido, resultou do alargamento e regularização promovidos nos séculos XVIII e XIX de um velho caminho que, durante séculos, saía do largo com o mesmo nome (rebaptizado em 1835 com a designação de Praça do Exército Libertador) e atravessava a mata em direcção ao norte.

Mas, o que tem a ver o topónimo Carvalhido com a memória das antigas matas e bouças existentes nos arrabaldes do Porto?

Conhecido documentalmente desde 1638, mas seguramente com génese muito mais antiga, a designação “Carvalhido” tem a sua origem, como facilmente se depreende, na alusão à existência de carvalhos, a mais abundante árvore autóctone da região.

De resto, e em tempos bastante recuados, as matas da Prelada e Carvalhido fizeram parte de uma extensa, contínua e importante mancha arbórea que se prolongava até quase às muralhas da cidade do Porto e que abarcava igualmente a área do não menos sugestivo  topónimo “Carvalhosa”, na vizinha freguesia de Cedofeita. Plantas antigas da cidade e das suas cercanias são explícitas quanto aos soutos de carvalhos que aqui se desenvolviam.

De regresso à rua do Carvalhido, dever-se-á salientar que esta artéria abriga ainda hoje alguns edifícios arquitectonicamente interessantes dos finais do século XIX e da primeira metade do século XX, período decisivo na ocupação urbanística que esta artéria conheceu. É junto a um desses conjuntos, do lado de Ramalde (o lado nascente da rua pertence a Paranhos), que encontramos o edifício que durante muitos anos serviu de sede ao Clube Sportivo Nun’Alvares, uma das associações históricas da freguesia, fundado em 1915, mas que na actualidade desenvolve fundamentalmente a sua actividade em moderno complexo desportivo na vizinha freguesia de Paranhos.

 

Rua da Prelada

A POVOAÇÃO DAS PIRÂMIDES

Texto: Joel Cleto (in Jornal de Ramalde.3ª série, nº12. Porto, 22 de Fevereiro 2002, p.2; e Jornal de Ramalde.3ª série, nº13. Porto, 8 de Março 2002, p.2)

Durante o século XIX não era difícil a qualquer portuense deslocar-se até à povoação das Pirâmides. Para tal não era necessário ir ao Egipto e fazer um qualquer cruzeiro ao longo do Nilo. Bastava, tão somente, uma visita a Ramalde. Aí, junto ao Carvalhido, e dominada por duas altas e antigas pirâmides, desenvolvia-se um pequeno aglomerado que tomou o nome daqueles monumentos. Hoje já não existe no local nenhuma das pirâmides, deslocadas que foram, há já muitas décadas, para o Passeio Alegre, na Foz do Douro (?!). Com elas desapareceu também o interessante topónimo que a pequena povoação possuía, substituído pela designação “Rua da Prelada”. Uma rua que, sendo das  mais curtas da freguesia, é uma das que mais guarda interessantes histórias e património de Ramalde e da cidade. Com cinema e bispos à mistura... 

Entre a Praça do Exército Libertador (vulgarmente designada por Carvalhido) e o gaveto formado pelas ruas dos Castelos e Direita de Francos, desenvolve-se a Rua da Prelada que, desde o século XVIII até aos inícios do XX, foi conhecida por povoação das pirâmides. Tal designação derivava de um pequeno aglomerado de casas que se localizava junto daquela que era então a entrada da Quinta da Prelada, definida pela implantação de duas grandiosas pirâmides graníticas, com mais de doze metros de altura. Estas pirâmides, concebidas nos anos ’40 do século XVIII pelo famoso arquitecto Nicolau Nasoni, faziam parte do gigantesco projecto paisagístico que aquele artista imaginou, e em grande parte materializou, nesta propriedade dos Noronha de Menezes. Sobre esta Quinta (que abordaremos de forma mais detalhada quando focarmos a Rua dos Castelos), a rua da Prelada e as pirâmides, não resistimos a transcrever o que sobre elas escreveu, em 1758 nas “Memórias Paroquiais”, Francisco Xavier de Carvalho, o então pároco de Ramalde: “No lugar da Prelada ha hua Quinta que passa pella melhor destas Provincias, a sua entrada principia no lugar do Carvalhido, aonde fáz hum largo de trezentos e cesenta pés de cumprimento, e quarenta e trés de largo (...) no fim delle se elevaõ duas Piramedes de figura triangular assentadas sobre três bolas de pedra, ellas tem de altura trinta péz, e dois terços, acabaõ em ponta aguda com hua torre em sima, que saõ as armas dos Noronhas; as bazes, que as sustentaõ tem de alto déz péz; pegado ás Piramedes comesa a primeira entrada...”.

Estas pirâmides não resistiram, contudo, ao crescimento urbanístico do local. Deslocada, uma delas, alguns metros em 1884, aquando do alargamento da actual Rua Direita de Francos, ambas acabariam, anos mais tarde, por serem desmontadas e deslocadas vários quilómetros, para o extremo nascente do jardim do Passeio Alegre, na Foz do Douro, onde, em abono da verdade, não só ficaram completamente descontextualizadas mas perderam também muito do seu impacto e imponência, servindo de pouco consolo o facto de terem sido classificadas, em 1983, como imóveis de interesse público. Por outro lado, a ausência destes monumentos do seu local original de implantação acabou por conduzir, ainda durante a primeira metade do século XX, ao desaparecimento da designação de povoação das Pirâmides, substituída por Rua da Prelada.

E foi já na Rua da Prelada que, em 1918, se instalou uma das pioneiras empresas cinematográficas do nosso país: a “Invicta Filmes”,  criada dois anos antes. Os estúdios e edifícios destinados a laboratórios, gabinetes e escritórios, que monta no local, na chamada Quinta do Carvalhido, comprada à Misericórdia do Porto, foram muito recentemente demolidos para dar lugar ao próximo prolongamento da Avenida de França. Os estúdios então edificados, ocupando as construções uma área de 50 mil metros quadrados, foram considerados naquela época como os melhores da Península Ibérica, ombreando com os de maior destaque de então na Europa. Curiosamente, muitas das filmagens de exterior utilizavam como cenário a própria Quinta da Prelada.

A “Invicta” rodará cerca de vinte filmes entre 1918 e 1924, entre os quais alguns dos maiores sucessos do cinema mudo português: “Frei Bonifácio” (1918), “A Rosa do Adro” (1919), “Os Fidalgos da Casa Mourisca” (1920), “Amor de Perdição”, “Mulheres da Beira” (1921) – filmes aos quais andavam associados alguns dos mais importantes nomes do cinema internacional da época, como o realizador George Pallu, o arquitecto-decorador Albert Durot ou Rino Lupo. Entre os actores que interpretaram papeis em filmes da Invicta contam-se Palmira Bastos, Amélia Rey Colaço, Robles Monteiro, Raul de Carvalho e Brunilde Júdice.

Nos finais da década de ’20 começaram, no entanto, a surgir diversos problemas económicos que acabariam por conduzir ao encerramento da empresa. As instalações são então adquiridas por Fonseca & Faria Lda. que aí monta uma empresa têxtil: a Fábrica de Acabamentos do Carvalhido que possuía tinturaria, estamparia e acabamentos. A alta e emblemática chaminé daquela unidade industrial, que durante décadas dominou a Rua da Prelada (desaparecidas que estavam as pirâmides) possuía num azulejo a data de arranque desta fábrica: 1933. Mas também esta fechou em 1969, tendo as instalações sido sucessivamente ocupadas por um sem número de armazéns, pequenas oficinas e até um campo de tiro...

Em frente ao que resta das ruínas dos velhos edifícios da “Invicta”/Fábrica de Acabamentos do Carvalhido, no pequeno jardim situado a meio da rua, onde esta é mais larga, está erigida uma estátua, datada de 1955, que perpetua a figura do bispo do Porto António Augusto de Castro Meireles (1885-1942), responsável pela criação da paróquia do Carvalhido. Desta estátua em bronze, da autoria do escultor Henrique Moreira, existe uma cópia gémea no centro de Lousada, concelho de que era natural este prelado.

O nome da Invicta Filmes foi entretanto perpetuado na toponímia da freguesia, em 2001, ao ser atribuído o seu nome a uma nova rua aberta, não muito longe dos seus velhos estúdios, em antigos terrenos da Quinta da Prelada, contígua ao Hospital da Prelada.

Quanto às origens do topónimo “Prelada”, que remontam à Idade Média, remetemos o leitor para o nosso artigo dedicado à Travessa da Prelada.

 

 Travessa da Prelada

O MISTÉRIO DA PEDRA

Texto: Joel Cleto (in Jornal de Ramalde.3ª série, nº14. Porto, 22 de Março 2002, p.2)

Percorrer a pequena Travessa da Prelada é uma verdadeira viagem no tempo. Ao longo desta artéria, onde também nasceram os  incontornáveis edifícios dos finais do século XX, o viajante depara com múltiplos motivos de interesse: pequenas casas do século XIX, belíssimas perspectivas sobre a Quinta da Prelada, edifícios rurais que nos retratam o passado agrícola da freguesia, e as construções contíguas ao palácio do século XVIII da senhorial Quinta da Prelada. Repleta ainda das memórias de um dos maiores aguarelistas europeus do século passado (António Cruz), que aqui viveu, a Travessa da Prelada esconde também um curioso segredo: que pedra famosa seria aquela que deu origem ao seu nome?

Embora hoje seja uma pequena, estreita e periférica artéria da freguesia, praticamente sem saída (desemboca num estradão em terra batida, nas proximidades da Escola Preparatória Maria Lamas), a Travessa da Prelada foi, no passado, o eixo principal de uma das mais destacadas aldeias da freguesia: a da Prelada. Com efeito, este foi durante séculos o núcleo central do referido povoado, estando, de resto, na origem da designação da grandiosa Quinta da Prelada cuja casa e entrada principal ladeavam a actual travessa. Curiosamente assistiu-se, no entanto, durante os últimos cem anos a uma significativa “deslocação” do topónimo para zonas periféricas a este pólo original. E é por isso que hoje a generalidade das pessoas não associa a Prelada ao seu local de origem, mas sim ao Carvalhido (em resultado da Rua da “Prelada” aí situada e que abordamos nos dois últimos números), ao lugar de Francos (em virtude da zona residencial da “Prelada” aí implantada), e até às proximidades do Monte dos Burgos (por causa do Parque de Campismo da “Prelada”).

Referenciada desde a mais remota Idade Média, a Petra lada de Ramalde é descrita nas Inquirições de 1258 como possuindo quatro casais (propriedades rurais) Domne Regine (isto é, pertenciam à rainha D. Mafalda, filha do monarca Sancho I que lhe terá doado estas propriedades). Por trabalharem estas suas terras, quem aqui habitava via-se obrigado a pagar à referida rainha várias direituras e a sexta parte do pão (cereias) aqui produzido. Bastante interessante é o facto de três desses quatro casais estarem em poder de Domni Silvestri, cujusdam mercatoris Portu, ou seja, de um D. Silvestre, negociante da cidade do Porto. E esta referência é bastante interessante porque, não deixando D. Silvestre de ser, pela sua profissão e pela forma de possuir os casais, um homem do povo, seria já o suficientemente abastado para não trabalhar na terra (sub-arrendando-a) e possuir a designação de dom. Timidamente a burguesia iniciava o seu processo de afirmação social e económica...

Ao longo dos séculos outros proprietários e senhores se sucederam. Os mais famosos foram, no entanto, os Noronha de Menezes donos da grande propriedade que viria a tomar o nome deste lugar: a Quinta da Prelada, na qual o destacado arquitecto italiano Nicolau Nasoni irá edificar, no século XVIII, o palácio dos proprietários e um conjunto considerável de jardins, fontes, alamedas, lagos, labirintos e motivos escultóricos, naquela que é considerada a sua maior obra de arquitectura paisagista. Sobre a Quinta da Prelada remetemos no entanto o leitor para um futuro artigo sobre a Rua dos Castelos.

 

 

 

De regresso à Travessa da Prelada não se poderá deixar de evocar a memória do pintor António Cruz (1907-1983) que aqui viveu grande parte da sua vida. Embora tivesse entrada pela Rua dos Castelos, foi nas traseiras da sua casa, voltada para a Travessa da Prelada, que o artista produziu muitas das suas obras. E era frequente observá-lo, com a sua bata e pincéis, a deambular na pacatez da travessa, junto a uma ou outra das árvores que então aí existiam. Discípulo  de mestres como Acácio Lino, Dórdio Gomes e Barata Feyo, António Cruz frequentou a escola de Belas Artes do Porto e obteve diversos e prestigiados prémios de desenho, aguarela e escultura. Viajou longamente pela Europa nas décadas de ’30 e ’40, quedando-se especialmente nos países do Norte onde o atraíam as neblinas e brumas que se tornariam recorrentes na sua obra como paisagista. Amigo de Manuel de Oliveira, António Cruz é a figura central de um dos primeiros filmes daquele cineasta, “O Pintor e a Cidade”, onde a paixão dos dois pelo Porto deu origem a uma belíssima obra, onde o cinema e a pintura se misturam magistralmente. Artista de referência mundial no campo da aguarela, é considerado, de resto, como um dos expoentes máximos do século XX nessa categoria.

Mas... e o mistério? – perguntará, já impaciente, o leitor que se sentiu atraído para a leitura deste artigo por causa do seu título.

Pois bem. É mesmo um  mistério...

Não há dúvidas que Prelada resulta da designação medieval de Petra lada ... e que petra significa pedra. Quanto a lada, as explicações são já mais diversas e poderá significar tombada, inclinada ou “que está ao lado”. Independentemente do seu verdadeiro significado, que hoje nos escapa, a verdade é que aqui existiu uma velha e bem visível pedra que servia de indiscutível referência em relação lugar. Que pedra tão importante seria essa? Um grande afloramento natural que se evidenciava na paisagem? As ruínas de uma construção pré-histórica do tipo menir ou anta? Uma outra pedra qualquer que possuía gravada antiquíssimas inscrições ? E o que é que aconteceu a essa pedra? Onde está ela? O mistério continua...

 

 Rua de Requesende

O CAMINHO DO REI

Texto: Joel Cleto (in Jornal de Ramalde.3ª série, nº15. Porto, 12 de Abril 2002, p.2; e Jornal de Ramalde.3ª série, nº17. Porto, 10 de Maio 2002, p.2 )

Ainda Portugal não existia como estado independente e, já em 1010, o lugar de Requisendi era referenciado. Aquele que é seguramente um dos mais antigos núcleos habitacionais da freguesia de Ramalde e que nos finais do século XIX era descrito como sendo “uma povoação de lavradores abastados” esteve no entanto, e até muito tarde, mal servido de caminhos e acessos. O que não deixava de ser algo contraditório para um lugar cujo nome, de origem alto-medieval, provavelmente significaria “o caminho do rei”. Até que em 1873 se projectou e construiu a “Estrada Municipal de 2ª classe da Tilheira à rua da Bôa Vista”  que não só permitiu melhor acessibilidade à povoação mas acabou, igualmente, por traçar e regularizar aquela que é hoje a Rua de Requesende.

Desconhecem-se até ao presente momento, no território da actual freguesia de Ramalde, vestígios de ocupação humana datados do período do domínio romano ou mesmo de épocas anteriores.  Estamos convencidos, no entanto, que tal facto decorre apenas da inexistência de aprofundados estudos arqueológicos nos mais antigos núcleos urbanos da freguesia. O futuro próximo poderá, neste aspecto, vir a revelar algumas agradáveis surpresas.

Assim, e perante esta ausência de vestígios arqueológicos que atestem a antiguidade de uma fixação de comunidades humanas que a potencialidade das suas terras e da sua topografia fazem adivinhar, os mais antigos indícios acabam por ser os toponímicos. Entre eles destaca-se o de Requesende, já documentado no ano 1010 e com múltiplas referências ao longo de toda a Idade Média, surgindo mesmo como povoação de alguma importância nas “Inquirições” mandadas fazer pelo rei Afonso III em 1258, sob a designação de Requisendi.

É de difícil explicação a origem deste topónimo que, curiosamente, existe também nos concelhos de Monção e Póvoa de Lanhoso e na vizinha Galiza. Segundo alguns etimologistas (investigadores que se dedicam à origem das palavras) Requesende terá uma origem “germânica” que se poderia relacionar nesse caso, e já na nossa opinião, com a ocupação deste território na Alta Idade Média por parte de comunidades decorrentes das invasões “bárbaras”, nomeadamente suevos e visigodos. Voltando aos estudos etimológicos, nomeadamente de J. Piel, a origem de Requesende resultaria da junção de dois nomes: “Rek” e “Send”. Embora problemático o primeiro poderá significar rei ou princípe. Já a designação “send” ou “sind” é mais frequente na toponímia do norte do país e relaciona-se com caminho, ida ou expedição militar.

É pois aliciante, e até um pouco romântico, pensarmos na Rua de Requesende como o “Caminho do Rei” ou da “expedição do príncipe”...

Mas se a aldeia de Requesende existe documentalmente há já quase um milénio, o mesmo não poderemos dizer da sua rua. Embora servido por  tortuosos e lamacentos caminhos desde épocas bastante remotas, o lugar só ficou devidamente acessível no último quartel do século XIX quando, na sequência de um projecto de 1873, se abriu a “Estrada Municipal de 2ª classe da Tilheira à rua da Bôa Vista”  que não só permitiu melhor acessibilidade à povoação mas acabou, igualmente, por traçar e regularizar aquela que é hoje a Rua de Requesende.

Para avaliarmos da importância da abertura desta estrada, na qual se inseria a artéria que vimos descrevendo, e para um melhor conhecimento da paisagem e das características de Ramalde nessa época, vale a pena ler a  “Memória descriptiva” do projecto, existente no Arquivo Histórico Municipal de Matosinhos. Particularmente curiosas são as referências à inexistência, até essa data, de uma estrada de circunvalação à cidade do Porto. Facto que, de algum modo, esta estrada vem colmatar. E eis, assim, uma outra perspectiva surpreendente desta rua: a de já ter feito parte da mais antiga estrada de circunvalação da cidade: “A freguesia de S. Salvador de Ramalde do concelho de Bouças confina na sua maior parte com freguezias da cidade do Porto (...); é freguesia muito agricula (sic) e em que estão estabelecidas várias fábricas de tecidos e serralharia e valiosas quintas de recreio, e por isso e por ser bastante plana e arborisada é frequentada no tempo de Verão; porém os caminhos em quasi toda a sua extenção são muito estreitos e demasiado pantanosos no inverno, e por vezes intransitáveis.

“Há muito tempo que toda a população reclamava uma estrada que atravessasse as estradas principaes, que da cidade do Porto seguem para Braga e Póvoa de Varzim, e fosse desembocar na prolongação da rua da Boa Vista, a fim de facilitar o transito das referidas estradas com o litoral; porque mercadorias há que podendo tranzitar livremente no concelho de Bouças o não podem fazer na cidade do Porto onde tem de pagar direitos de barreira ou fazer-se acompanhar por um guarda na entrada e saída, o que se torna incommodo e despendioso; porque em abono da verdade não há nos arredores da cidade do Porto uma estrada de circunvalação que atravesse as principaes estradas que afluim à cidade.

“A Câmara de Bouças tendo na sua maior consideração os interesses dos seus  municipes deliberou mandar proceder ao projecto da referida estrada fazendo-a partir (...) junto à Quinta da Tilheira proxima à estrada de Braga (...). Da quelle ponto segue ao lugar do Monte dos Burgos atravessando a estrada da Pôvoa de Varzim, e passa junto à capella de Requesende desenvolvendo na aldeia proxima por entre uma povoação de lavradores abastados, e vai atravessar em Ramalde do Meio, aldeia muito populosa, e por onde segue a estrada que do Porto passa por a Senhora da Hora e vai a Matozinhos e Leça da Palmeira; dali aproveitando tanto quanto possível os estreitos caminhos vae passar junto à Igreja de Ramalde a fim de tornar transitável a passagem para enterros muito principalmente de inverno, em que se torna, senão impossível, ao menos muito deficultoso (sic) o levar os cadaveres ao cemiterio; deste ponto segue a outro limite da freguesia e concelho a entroncar na rua da Bôa Vista.”

Da análise à “Memória Descriptiva” do “Projecto da Estrada Municipal da Tilheira á rua da Bóa Vista” percebe-se que esta via aproveitou, regularizando-os, os velhos caminhos já existentes. Não seria, portanto, correcto afirmarmos que a Rua de Requesende foi aberta na sequência deste projecto datado de 1873. A sua origem é seguramente muito anterior. Tanto quanto a própria povoação. A “Memória Descriptiva” é, de resto, explícita:  “A Câmara deu as mais treminantes (sic) ordens para que este traçado fosse bem estudado antes de se elaborar o projecto, e que se aproveitasse quanto possivel os tortuosos caminhos já existentes para que o traçado fosse razoavelmente o mais economico, poupando sempre os terrenos de maior valor, assim como que se tivesse em consideração o não retalhar a propriedade dirigindo-o, sempre que fosse compatível, por as extremidades das propriedades...”.

Mas, se estas foram as regras, houve também as suas excepções. E a Rua de Requesende aí está para o provar, com dois tipos de traçado completamente diferentes ao longo do seu trajecto. Com efeito o primeiro troço, sensivelmente entre a actual Rua de Santa Luzia e a bifurcação da rua de Requesende com a Travessa do mesmo nome, corresponde a uma primeira parte estreita e “turtuosa” que se desenvolve entre as casas ”da aldeia (...) de lavradores abastados”. Já a  segunda parte do traçado, da bifurcação com a Travessa de Requesende ao cruzamento de Ramalde do Meio, corresponde a uma artéria muito mais desafogada, larga e completamente rectilínea. Esta segunda parte da rua foi, essa sim, resultado da abertura da “estrada municipal”. De resto, e ao contrário do primeiro troço, não se encontra aqui qualquer edificação significativamente antiga. A de datação mais recuada encontra-se logo no início deste segmento, no gaveto com a Travessa de Requesende, e, mesmo assim, o seu belíssimo portão em ferro forjado (já voltado para a travessa) revela estarmos em presença de um imóvel de 1892.

Mas, embora mais recente, nem por isso este segmento da rua é menos interessante. São vários os motivos históricos e culturais que lhe dão relevância. O facto de, por exemplo, passar sobre a Ribeira da Granja, um dos últimos afluentes da margem direita do Douro, sobre o qual remetemos o leitor para o nosso próximo artigo dedicado à Travessa de Requesende. Curioso é também o facto deste troço da rua estar associada às origens históricas dos baptistas em Portugal. Confissão religiosa minoritária em Portugal (embora dominante em muitos outros países, como nos Estados Unidos da América) os baptistas, uma das primeiras expressões “protestantes” a implantar-se no nosso país, sediaram no início do século XX no nº 194 da Rua de Requesende  o Seminário Baptista Português, que aí funcionou durante vários anos.

A mais emblemática instituição sediada em Requesende é, no entanto, no actual nº 124, a Associação Recreativa e Cultural Conjunto Dramático “26 de Janeiro”. Freguesia de fortes tradições teatrais, Ramalde possui nesta colectividade o ex-libris desta expressão cultural. Criado em 1924 por habitantes de Ramalde do Meio, e designado então por Conjunto Dramático Beneficente, só alguns anos mais tarde é que esta associação se legalizaria com a sua actual designação e se sediaria na Rua de Requesende onde a sua sala de espectáculos tem acolhido, ao longo de muitas décadas e apesar de alguns períodos de crise, múltiplos êxitos do seu grupo de teatro e de outros para os quais tem sabido abrir as suas instalações. Instituição declarada de Utilidade Pública, o “26 de Janeiro” é uma das colectividades históricas e de referência da freguesia tendo-se revelado ao longo dos anos como uma importante escola de formação cívica de dirigentes associativos.

 

 Travessa de Requesende

O LUGAR DO MOINHO

Texto: Joel Cleto (in Jornal de Ramalde.3ª série, nº18. Porto, 24 de Maio 2002, p.2)

Num gesto mecânico, repetido há gerações, o velho moleiro abre as comportas. As águas represadas da ribeira da Granja deslizam então, com toda a força, ao longo do canal que as lança sob o moinho fazendo mover a velha roda de madeira (o rodízio de penas) e o seu eixo. No interior a pesada mó granítica, implantada no outro extremo do eixo, inicia agora, lentamente, a sua interminável viagem giratória que, nos segundos seguintes, atingirá velocidade considerável. Por esta altura já os grãos de milho que haviam sido vertidos através da moega e da quelha para o interior da mó são triturados, moídos, convertidos em pó...

Limpando o suor da testa, com a ajuda do braço, o moleiro – o “Badalhoco” – já penetrou na penumbra do interior da construção e recolhe agora a farinha. Farinha que encherá numerosos sacos encostados às paredes do moinho, localizado ao fundo da Travessa de Requesende, local onde corre a ribeira da Granja e que, sintomaticamente, foi conhecido durante muito tempo como “Lugar do Moinho”.

A cena descrita nas linhas anteriores foi, durante séculos, bastante comum em Ramalde, freguesia onde a actividade moageira era assegurada por várias azenhas. No caso concreto do moinho do “Badalhoco”, na Travessa de Requesende, ainda era possível observar tal actividade em meados do século XX, e vestígios do velho moinho ainda eram visíveis no local até há algumas semanas. A fonte energética destas estruturas eram as águas da Ribeira da Granja: o último afluente, digno desse nome, da margem direita do Douro e que, atravessando toda a freguesia de Ramalde, desagua em Lordelo do Ouro, continuando nos nossos dias a correr a céu aberto numa parte muito significativa do seu percurso.

Embora esteja actualmente transformado num fétido esgoto (tem-se anunciado nas últimas semanas a possibilidade da sua despoluição e regeneração), este curso de água revelou-se ao longo dos tempos de grande importância para a prática agrícola que, durante séculos, dominou a actividade dos ramaldenses. De facto os terrenos de lavoura mais férteis da freguesia coincidiam com as plataformas de aluvião da ribeira e seus afluentes. Aliás, já nas “Memórias Paroquiais” de 1758 o pároco da freguesia vizinha de Lordelo do Ouro, referindo-se à ribeira da Granja, escrevia: “(...) e della se utiliza muitos campos (...) e por esta razaõ faz esta terra mais copiosa nos frutos e milho grosso ...”.

Mas, para lá do seu contributo para as reconhecidas potencialidades agrícolas das suas margens, a Ribeira da Granja possuiu, outrora, outras características que a tornaram num elemento imprescindível para as comunidades que junto dela se fixaram. Espaço de lazer (ainda há 40 anos aí se tomavam “bons banhos” nos ensolarados dias de Verão) e de fornecimento de algum peixe (cuja ocorrência vários testemunhos registam ainda há cerca de 35 anos), as águas da Ribeira da Granja fizeram mover, ao longo dos séculos, muitos moinhos e azenhas. Recorrendo novamente às “Memórias Paroquiais” de 1758, o pároco de Ramalde referencia, ao longo do seu trajecto na freguesia, três moinhos, e o de Lordelo um outro moinho e dezoito azenhas copeyras. Dizia ainda este último pároco que estas estruturas tornavam os seus possuidores mais opulentos.

O moinho que citamos no início deste artigo (popularmente designado por “Badalhoco”), existente até há algumas décadas no final da Travessa de Requesende, localizava-se num local de grande importância para a ribeira, pois  é aí que confluem os seus dois principais ramais iniciais: um proveniente da Arca d’Água (na freguesia de Paranhos) e um outro oriundo do Seixo, já no vizinho concelho de Matosinhos, mais a norte. O caudal que, assim, a ribeira aí toma, a força das suas águas acentuada por um desnível topográfico mais intenso que aumenta as suas capacidades energéticas, tudo se conjugou para que, desde muito cedo, muito antes do “Badalhoco”, este fosse um local  reconhecidamente propício para a instalação de estruturas moageiras accionadas pelas águas. De resto o mesmo documento de 1758 não só refere que um dos moinhos existentes na freguesia aí se implantava, como indica que ao local se chamava mesmo lugar do Moinho: “(...) aonde chamaõ Moinho lugar de Ramalde do meyo desta freguezia entra outro regato...”.

Mas a Travessa de Requesende não é só a Ribeira da Granja e o recentemente desaparecido moinho do Badalhoco. Estes, em boa verdade, caracterizavam apenas um dos extremos (o do lado poente) desta artéria que é, toda ela, fortemente marcada pela ruralidade até há poucas décadas dominante em toda a freguesia. Aliás, calcorrear ainda hoje esta travessa é uma verdadeira viagem no tempo e um convite à descoberta de que, em plena cidade, ainda existem (resistem) algumas aldeias. Com casas agrícolas, vacarias, campos de lavoura, silvados...

A Travessa de Requesende foi, de resto, e durante muitos séculos, o prolongamento natural da aldeia/rua de Requesende, como facilmente se depreende do seu traçado estreito e sinuoso na sequência da primeira parte daquela rua. Só depois de 1873, com a regularização e abertura das artérias que deram corpo à Estrada Municipal da Telheira à Boavista, é que (como já vimos no artigo sobre a Rua de Requesende) se procedeu ao prolongamento rectilíneo e largo da Rua de Requesende em direcção ao cruzamento de Ramalde do Meio, secundarizando o velho troço que se dirigia para o lugar do Moinho e para a Quinta do Rio, que se viu assim “relegado” para a condição de “travessa”.  Uma travessa que, como já referimos, guarda como poucas ruas da cidade, a Memória de um Porto que já foi feito de aldeias. Mas as casas ainda por lá estão. Algumas em ruínas, embora indiciem alguma imponência original (caso dos vestígios de uma edificação cuidada, com alguns pormenores artísticos e datada, sobre a padieira, de 1769). Outras ainda em pé.  Mas não por muito mais tempo... Para a velha Travessa de Requesende estão já programadas diversas intervenções urbanísticas que a irão modificar radicalmente. Velhas construções ribeirinhas, entre as quais, esquecidos, permaneciam os últimos vestígios do moinho do “Badalhoco”, foram demolidas recentemente. O mesmo acontecerá brevemente a outros edifícios que, como  poucos, guardavam ainda uma certa atmosfera  e sabor de uma Ramalde decididamente perdida. A ribeira da Granja, essa, continua a correr ao fundo da travessa...

 

Rua do Lugarinho

BANANAS & CAIXINHAS

(Memórias da Minha Rua)

Texto: Joel Cleto (in Jornal de Ramalde.3ª série, nº21.Porto, 5 de Julho 2002, p.2)

Meio – (de um qualquer) dia quente do início do Verão. A sirene da estamparia ecoa, estridente como sempre. Os portões da fábrica abrem-se para as dezenas de operárias – algumas descalças – que, apressadas, calcorreiam agora a rua. De forma mais calma seguem-se-lhes os operários. Alguns saem de bicicleta. Outros, muitos, de socas e de marmita nas mãos, vão-se sentando e encostando às paredes exteriores da fábrica deliciando-se, enquanto almoçam, com os quentes raios solares. Alguns lançam um olhar curioso para o início da rua onde, do campo da “Vaquinhas”, sai mais um miúdo curado do trasorelho. No outro extremo, ao fundo da rua, algumas senhoras vão saindo, com as sacas carregadas, da afamada “Fábrica das Bananas”. E pelo ar ecoa também a mais conhecida frase da rua: “Oh Dona Fernandinha dê-me uma caixinha...”

Tudo isto se passava, no início da década de ’70 do século XX, numa rua  que, apesar de parecer ter nome de sítio, tem nome de pessoa: Lugarinho.

Já muito se especulou sobre a origem do topónimo “Rua do Lugarinho”, situado entre a Rua dos Castelos e o cruzamento de Francos.  Ideia corrente é que o nome desta rua resultaria da possível existência no local, no passado, de uma pequena aldeia/”lugar”. Outros admitem mesmo que era aqui que se concentravam, num pequeno “lugar”, as casas dos rendeiros que trabalhavam na vizinha Quinta da Prelada. São, no entanto, explicações sem qualquer fundo histórico ou comprovação documental. A realidade no entanto, embora mais comezinha, não deixa de ser surpreendente: um documento datado de 15 de Fevereiro de 1887, existente no Arquivo Histórico Municipal de Matosinhos (na pasta de “Processos de Aforamento – 1886 a 1891”), revela não só a abertura da rua mas também a origem do seu nome. Por esse documento se percebe que a rua resulta do alargamento de um caminho de pé-posto que, seguindo já o actual traçado, era no entanto muito mais estreito e de piso seguramente muito mais irregular. Para a concretização da rua havia pois que alargar o velho caminho rural, e para tal houve que negociar com o proprietário dos terrenos agrícolas que o circundavam: Manuel Gonçalves Lugarinho... Está, assim, esclarecido o mistério.

Não obstante a sua abertura nos finais do século XIX, a verdade é que fortes marcas de ruralidade permaneceram na rua durante um século, sendo ainda bastante evidentes há vinte anos atrás. No lugar onde hoje se ergue, por exemplo, o edifício do Centro Comercial do Carvalhido, situava-se a casa rural e o campo agrícola da “Vaquinhas”. Era uma casa conhecida por quase todas as crianças que cresceram nesta zona. Ou porque, depois de saltar sobre o alto muro de pedra bem aparelhada, iam ao milho e aos pardais, ou porque, quando lhes surgia o “trasorelho” (papeira) as mães aí os levavam para que a “Vaquinhas” lhes colocasse sobre o pescoço o quente jugo dos bois... terapia popular muito utilizada e afamada.

Um outro grande campo agrícola desaparecido da rua nas últimas décadas foi o do “S’ôr Joaquim” que, em vez dos tradicionais cultivos, percebeu que a terra renderia muito mais como... garagem. Isso mesmo: garagem ! E assim, durante mais de vinte anos, as antigas hortas e milheirais deram lugar a um extenso terreno em terra batida onde se ergueram dezenas de pequenas garagens, construídas toscamente em madeira, nas quais meio-mundo (pelo menos o meio que morava nas cercanias) guardava os automóveis. Fechadas há já um bom par de anos, para o local anuncia-se uma moderna e extensa urbanização.

Como quase toda a freguesia, a Rua do Lugarinho demonstrava também uma forte articulação entre o mundo rural e o industrial. É que junto a estes campos erguiam-se, igualmente, algumas fábricas e as modestas habitações operárias, como as da “ilha do Papelão”. Entre as fábricas refira-se a recentemente demolida Estamparia Império (construída em 1945) que, com a sua alta chaminé, dominou durante décadas grande parte da rua. Também no seu lugar está já a nascer uma ampla urbanização. Embora encerrada e igualmente com projectos imobiliários para o local resta ainda, ao fundo da rua, os armazéns e equipamentos de torrefacção daquela que ficou popularmente conhecida como “Fábrica das Bananas”. Esta designação, que tanto alimentou o imaginário infantil das crianças da rua, resultava do facto de aí chegarem regularmente grandes fornecimentos de bananas provenientes das ilhas e das colónias que, vendidas directamente na fábrica às muitas pessoas que aí se dirigiam, beneficiavam de um preço muito reduzido uma vez que não se recorria a intermediários.

Nos inícios da década de ’70 uma outra importante estrutura do mundo industrial surgiu na rua: a sub-estação eléctrica do Monte dos Burgos. Tão importante que no “25 de Abril de 1974” foi considerado pelo Movimento das Forças Armadas um local de importância estratégica e, por isso, guardado por soldados do MFA que, como não podia deixar de ser, se viram também no Lugarinho cobertos de atenções por parte dos populares e as suas armas floridas com cravos vermelhos.

 

 

 

Mas, para muita gente, a Rua do Lugarinho é simplesmente a rua da Dona Fernandinha. Ela é, com efeito, o mais estimado “ex-libris” da rua. Quem é que já ouviu falar da “Casa Liz”? Provavelmente quase ninguém. Contudo se falarmos da loja de retrosaria e miudezas da Dona Fernandinha, então não há dúvidas. Só pode ser o estabelecimento daquela simpática senhora que há já muitas gerações vem contribuindo para os sonhos e brincadeiras das muitas crianças que todos os dias cruzam a porta do estabelecimento no caminho de ida ou de regresso da escola primária do Bairro dos Castelos ou da Escola Preparatória Maria Lamas. “Oh Dona Fernandinha, dê-me uma caixinha!” – esta frase ecoa na rua há largos anos e, de uma forma impressionante, vai passando dos mais velhos para os mais novos. De tal forma que, já não é a primeira vez, alguns pais se surpreendem por ouvir aos filhos o mesmo pedido que há anos eles haviam formulado.

E a Dona Fernandinha lá vai dando e distribuindo todos os dias, com um largo, muito largo, sorriso, as caixas vazias dos botões, das meias, camisas... ou os tubos que haviam servido para enrolar os tecidos. E surgem assim, das mãos e inspiração das crianças, os mais interessantes brinquedos e jogos. Por vezes, como sinal de agradecimento, recebe desenhos que vai guardando religiosamente. Alguns já com mais de trinta anos...

A Rua do Lugarinho era/é tudo isto. Mas é, acima de tudo, a minha rua. A rua onde passei a minha infância, adolescência e parte da juventude. E sempre que lá passo não deixo de perscrutar, pelas vitrines, a loja da Dona Fernandinha, na expectativa de me observar, feito miúdo, do lado de dentro do balcão, “ajudando” a paciente senhora a forrar botões em troca de mais uma caixinha. E sempre que lá passo não paro de olhar para a soleira do nº235 no secreto desejo de poder contemplar o mesmo miúdo que, aí sentado, poucos minutos antes da uma da tarde, expectante espera contemplar ao fundo da rua a silhueta do pai que regressa a casa para almoçar. E sempre que lá passo olho, ansioso, para a mesma entrada esperando que daí saia a Palmirinha. Em vão... A minha mãe não mais surgirá à porta e a rua jamais será a mesma. Afinal, independentemente da sua história, do seu património e das suas memórias, as ruas são feitas, na sua essência, por pessoas. Como a minha mãe...

 

Rua Monte de Ramalde

NO TEMPO DOS ENGARRAFAMENTOS

texto: Joel Cleto (in Jornal de Ramalde.3ª série, nº22. Porto, 26 de Julho 2002, p.2)

Manhã cedo de um dia de Inverno de 1893. Em boa verdade poderíamos até dizer que ainda é noite, já que o sol não nasceu de todo e é, por isso, a penumbra, a neblina e a chuva miudinha que dominam o nosso cenário. Não obstante a hora, é já incrível o bulício da rua. Um trânsito intenso de carros de bois e de todo o tipo de meios de transporte provoca engarrafamentos contínuos nesta rua que é, para quem se desloca de algumas das povoações vizinhas a norte do Porto (entre as quais a Senhora do Hora, Matosinhos, Custóias...), o acesso mais directo à grande cidade. Eis um cenário que, embora real no passado, parecerá da mais completa ficção para quem, há muitas décadas, se habituou a ver nesta artéria apenas a estreita, sem saída e mais do que pacata Rua do Monte de Ramalde. 

Desconhecida da generalidade dos portuenses e até da maioria dos ramaldenses, a Rua do Monte de Ramalde possui um passado verdadeiramente surpreendente para quem nela se habituou a ver apenas a estreita viela que desemboca no cruzamento de Francos. Completamente secundarizada pelas outras duas ruas que – essas sim – dominam o cruzamento (a Central de Francos e a Direita de Francos), a Rua do Monte possui ainda, nos nossos dias,  a particularidade de não ter saída, facto que contribuiu ainda mais para o seu “isolamento” e pacatez.

Mas nem sempre foi assim. Durante séculos,  e de forma particularmente intensa nas últimas décadas do século XIX, a actual Rua do Monte de Ramalde fazia parte integrante de uma das principais vias de acesso à cidade do Porto, para quem por ela se deslocava vindo da periferia. Por tal motivo era intenso o trânsito que por ela circulava o que, tendo em conta as já então reduzidas dimensões da sua largura, provocava sérios problemas. Não só os inevitáveis engarrafamentos decorrentes de, num vasto trecho da rua, só caber um carro de bois, mas também porque a grande frequência de veículos na rua provocava cíclicos e irreparáveis danos no pavimento. Vejamos, a esse propósito, o que nos descreve um documento, datado de 29 de Dezembro de  1893, existente no Arquivo Histórico Municipal de Matosinhos (1): “Esta rua já foi empedrada com macadam, por diversas vezes,  em curto prazo de tempo, deteriorando-se com rapidez e tornando-se um enorme atoleiro intransitavel em occasião de chuvas. São causas d’isso, o grande tranzito de carros de bois, condusindo granito das pedreiras de S. Gens para as obras da cidade, e os vehiculos de toda a ordem, que por ella seguem para o Porto, por ser a via de communicação mais directa entre as povoações do Norte e este grande centro – a Cidade.“Todos estes vehiculos, devido á estreitesa da rua, seguem sempre o mesmo trilho, e auxiliados pelas chuvas, cortam o macadam, e arruinam a faixa empedrada.

“Assim, o empedramento a macadam, não convém a esta rua, pelas grandes despesas de conservação. O mais conveniente seria a parallelipipedos de Canellas; mas a Câmara Municipal, tendo de attender a muitos melhoramentos urgentes, não tem meios para satisfazer o seu elevado custo.

“N’estas condições, e tendo em consideração gastar o menos possível, imaginou-se duas faixas calçadas á portuguesa, solidamente construídas com pedra grossa e dura, de 0,80 m de largura cada uma, e 0,20 m de espessura, afastadas á distancia conveniente para que as rodas dos behiculos (sic) oscillem entre os seus extremos (...)

“D’este modo, e sendo a sua construção cuidadozamente feita, obter-se-há mais longa duração do que o macadam e as despesas de construcção e conservação serão muito reduzidas.”

Este é um documento suficientemente elucidativo... Valerá a pena, de resto, indicar que não obstante o cuidado colocado na construção (deliberada a 18 de Janeiro de 1894, com um orçamento de 185 mil reis), a opção não se mostrou de todo eficaz. Alguns anos depois, já no início do século XX, novo projecto e novas obras tiveram lugar na Rua do Monte de Ramalde. O paralelepípedo chegava finalmente. Mas chegava demasiado tarde...

Com efeito, em finais do século XIX uma série de profundas alterações nas acessibilidades ao Porto acabou por, num curtíssimo espaço de tempo, relegar esta artéria de uma situação de algum protagonismo para um quase esquecimento. Incapaz de suportar o crescente movimento de veículos para a cidade e, por isso, preterida em favor de acessos que, embora menos “directos”, eram indiscutivelmente mais largos, desafogados, de piso regular e, acima de tudo, mais rápidos e confortáveis, a Rua do Monte viu-se igualmente cortada pela linha de caminho de ferro do Porto à Póvoa. A existência dessa linha associada à construção, já em meados do século XX, do viaduto rodoviário de Pedro Hispano ou da Carcereira, ditou na zona alguns “arranjos urbanísticos” que, entre outros, provocaram o fecho da rua no seu extremo sul, junto à linha do comboio, possibilitando apenas a passagem de peões. A rua fechava-se, assim, à passagem de veículos que, desde então, aí só circulam para acesso às habitações da rua e às fábricas que aqui laboraram até há muitos poucos anos. Delas restam ainda algumas ruínas, prestes a desaparecer para dar lugar a novos projectos imobiliários impulsionados, neste início do século XXI, pela recente chegada do metro de superfície ao fundo da rua, em detrimento do velho comboio. A localização de uma das estações do metro nas suas proximidades poderá, de resto, relançar o antigo dinamismo e frenesim na velha “Rua do Monte de Ramalde”. Já não será, contudo, de carros de bois...

Quanto à origem do topónimo, ainda hoje a topografia da rua explica a provável origem do seu nome. Com efeito, por onde quer que se entre na rua, seja de Norte, pelo cruzamento de Francos; de Sul, pela Carcereira; de poente, pela Travessa da Pisca; ou por nascente, pela Travessa do Monte de Ramalde, o caminho faz-se sempre... subindo. Para o que já foi, num passado bastante recuado, um lugar ermo, coberto de vegetação natural que deixava, aqui e ali, adivinhar alguns afloramentos graníticos de razoáveis dimensões. Enfim... um Monte.

  • – Arquivo Histórico Municipal de Matosinhos - “Projecto para o empedramento da rua do Monte na extensão de 247 metros. Freguesia de Ramalde. Concelho de Bouças”. 1893

 

Rua Monte dos Burgos

NA PRAIA... HÁ 400 MIL ANOS

texto: Joel Cleto (in Jornal de Ramalde.3ª série, nº25. Porto, 13 de Setembro 2002, p.2)

Fim de tarde de um abrasador dia de Verão. Não há o mínimo sopro de vento e na praia reina o ruidoso silêncio das ondas desvanecendo-se no areal ou despedaçando-se contra um ou outro rochedo mais proeminente, indiferentes aos inúmeros mexilhões que, agarrados às rochas, tentam resistir às ávidas estrelas-do-mar que os procuram abrir e devorar. Ora empurrados ora puxados pelo mar, milhares de seixos embatem entre si num característico matraquear pétreo, interrompido aqui e ali pelo miar de uma gaivota que, mais afoita, faz um voo rasante sobre as águas. Dos homens não há sinais...

O sol vai-se pondo sobre o oceano enquanto a maré-baixa vai deixando a praia pejada de seixos. Muitos deles, contudo, não mais voltarão ao mar... Lenta, paulatina, mas também inexoravelmente, as águas irão recuar durante os milhares de anos seguintes, transformando esta “praia de Ramalde” num significativo vestígio das dinâmicas geológicas que ocorreram neste território durante o período Quaternário (sensivelmente os últimos três milhões de anos).

Durante grande parte do século XX a Rua do Monte dos Burgos foi uma das principais e mais directas vias de penetração na cidade. E ainda hoje, não obstante a abertura nas últimas décadas da Via Norte, da Avenida AEP ou da Via de Cintura Interna, esta rua continua a ser uma concorrida artéria de entrada e saída no Porto. Os diários e quase permanentes engarrafamentos junto ao cruzamento da rua com a estrada da Circunvalação aí estão para provar a importância que o arruamento continua a possuir no contexto das acessibilidades à cidade.

Embora as origens da Rua do Monte dos Burgos remontem a épocas bastante antigas – a sua génese estará num velho e estreito caminho que cruzava a Mata da Prelada, ligando o Carvalhido ao Seixo – a configuração actual do arruamento deve-se, fundamentalmente, a trabalhos de alargamento, regularização e correcção do percurso (de modo a dar-lhe a sua forma rectilínea) desenvolvidos no século XVIII e XIX, integrando-o na estrada real do Porto à Póvoa. De resto, as mais antigas construções da rua não parecem ser mais antigas do que o século XIX, com a possível excepção de muros e, eventualmente, parte do portal de acesso à Mata da Prelada (actual Parque de Campismo), que poderão remontar à centúria de Setecentos.

Uma viagem pela rua pode-nos, contudo, fazer recuar a épocas inimaginavelmente mais antigas. Basta-nos, para tal, debruçarmo-nos sobre a origem do topónimo “Monte dos Burgos”. A designação “monte” é ainda hoje uma evidência topográfica: penetrando pelos seus extremos, seja pela Circunvalação ou pela Rua do Carvalhido, a rua sobe sempre em direcção a um ponto central mais elevado. É, portanto, a designação “burgos” a mais fascinante. A localização estratégica deste monte, mesmo à entrada da cidade, vem fazendo crer a muita gente que a referência a “burgos” resultaria do facto de estarmos na presença de uma elevação localizada junto ao “burgo” portuense. Estranha e de difícil explicação é, nesta perspectiva, a designação plural utilizada, até porque o monte pertence apenas a uma cidade. Mesmo do outro lado da Circunvalação, as freguesias existentes (Senhora da Hora e S. Mamede de Infesta) nunca foram “burgos”.

Uma análise documental mais cuidada esclarece-nos, no entanto, que este é um falso problema já que a expressão “Monte dos Burgos” é muito recente, datando somente do século XX. Em contrapartida, são muitos os documentos e mapas do século XIX que se referem a esta elevação como “Monte dos Bulgos”. Bulgos !? Mas, o que são bulgos? Pergunta pertinente, até porque a palavra não consta dos melhores dicionários actuais da língua portuguesa. Contudo, no passado e na expressão popular, por bulgos designavam-se os seixos rolados de mar ou rio. Denominação que, sintomaticamente, e apesar da razoável altitude a que nos encontramos, é aqui perfeitamente possível face à abundante ocorrência de seixos que se podem recolher no solo e subsolo do Monte dos Burgos. Facto que, como é evidente, não poderia passar despercebido aos antigos lavradores e trabalhadores destas terras que, assim, terão baptizado o monte por esta sua característica. Mas, como explicar a existência no local desta abundância de calhaus rolados pelo mar ou rio?

De uma forma sintética podemos afirmar que, geologicamente, Ramalde não segue a regra do resto da cidade onde impera um tipo de granito alcalino de características muito próprias – e por isso conhecido por “granito do Porto”- em que a moscovite predomina claramente sobre a biotite. Estudos recentes englobam o Granito do Porto nos granitos hercínicos antigos, datáveis de há cerca de 300 milhões de anos. Todavia, nalguns pontos da cidade, como é o caso do Monte dos Burgos, mas também a área mais central da freguesia de Ramalde e na própria Boavista, estas rochas servem de suporte a formações geológicas superficiais muitíssimo mais recentes (datáveis do Quaternário, durante os últimos 3 milhões de anos), resultantes regra geral de “depósitos” derivados de antigas dinâmicas fluviais e marinhas. Os geólogos não estão, contudo, ainda completamente de acordo quanto às origens destas formações quaternárias do Monte dos Burgos e de Ramalde. As dúvidas giram em torno de saber se estamos perante depósitos geológicos relacionados com fenómenos marítimos ou fluviais. Há prós e contras  para as várias hipóteses. A primeira, que é também a mais antiga, interpreta estas formações como praias antigas elevadas, resultantes, portanto, de épocas interglaciares mais quentes do que a actual, durante as quais o nível das águas do mar atingiam estas altitudes. Nesta perspectiva alguns autores defendem que a superfície geológica do Monte dos Burgos poderia datar do período que mediou entre as glaciações de Mindel e de Riss, há cerca de 400 mil anos. Mais recente foi o interglaciar de Riss-Wurm, ocorrido há cerca de 100 mil anos, que estará provavelmente relacionado com outras formações geológicas deste tipo que se encontram em áreas mais baixas da cidade.

Os defensores da teoria de que estes depósitos têm origem em fenómenos fluviais, e que estaremos, nesse caso, perante antigos terraços de rios, nomeadamente do Douro, consideram que os defensores da explicação marítima não tiveram em conta as influências de possíveis deslocações tectónicas. Todavia, as obras de abertura da Via de Cintura Interna nesta área, em meados  da década de ’80 do século XX, ao provocarem importantes cortes e remeximentos, parecem ter indicado, nomeadamente através do tipo de rolamento dos seixos, que se estas formações geológicas não se ficaram a dever integralmente a fenómenos de transgressão marítima, no mínimo estes aqui se fizeram  sentir indiscutivelmente.

Alheios a toda esta celeuma geológica, os milenares seixos do Monte dos Burgos prevalecem e resistem no subsolo. Esperando, há 400 mil anos, pela maré-cheia que os devolva ao oceano donde foram arrastados por uma onda...  quem sabe, no fim de uma tarde abrasadora de Verão... 

 

Rua Monte dos Burgos (2)

A RUA DO CAMPISMO

texto: Joel Cleto (in Jornal de Ramalde.3ª série, nº27. Porto, 15 de Outubro 2002, p.2)

O eléctrico começava a abrandar a marcha. Era chegada a altura. Deixou para trás o banco de palhinha e, com algum custo, ergueu e colocou às costas a pesada mochila. O “6” chegava à Prelada e, de calções e botas de montanha, saltou pesadamente para o passeio, indiferente ao olhar dos atónitos viajantes que, naquela manhã de Verão de 1961, viam aquele que, afinal, era apenas o primeiros dos muitos milhares de campistas, oriundos dos mais díspares cantos do mundo que, durante as décadas seguintes continuariam a utilizar os transportes públicos para chegar até ao Parque de Campismo do Porto. 

Analisadas no nosso último artigo as origens históricas e toponímicas da Rua do Monte dos Burgos, não poderíamos deixar de referir, ainda que de uma forma breve, que nesta rua se localizam, ou localizaram, importantes instituições. Nem poderíamos deixar de lembrar que esta é, provavelmente, a mais internacional das ruas da freguesia na sequência de aqui se encontrar a entrada para o Parque de Campismo da Prelada.

Compreendida entre o cruzamento com a Estrada da Circunvalação e a Rua do Carvalhido, a Rua do Monte dos Burgos reparte-se, em grande parte do seu trajecto, entre as freguesias de Paranhos (do lado nascente) e Ramalde (do lado poente). Do lado da primeira destas freguesias funcionou até à década de ’70 do século XX uma importante unidade industrial têxtil, a famosa Fábrica das Sedas, cuja fachada com alguns elementos artísticos é ainda hoje visível e foi integrada numa urbanização que tomou o nome da velha fábrica. Do lado de Paranhos localizam-se, igualmente, outras instituições/conjuntos edificados de alguma importância, como é o caso do contínuo constituído pelo Lar do Monte dos Burgos, a 13ª esquadra da Polícia de Segurança Pública, e os armazéns/oficinas da Câmara Municipal do Porto.

O elemento mais notável e famoso da rua é, contudo, do lado de Ramalde, a extensa mata da Prelada transformada há mais de quarenta anos no Parque de Campismo do Porto.

Tudo começou no final da 2ª Guerra Mundial, em 1947, com a criação do Clube de Campismo do Porto, na sequência de alguma abertura do regime ditatorial a práticas de crescente implantação e sucesso no estrangeiro, como o campismo e montanhismo, e que até aí não haviam sido muito bem aceites pelas autoridades nacionais. Bastaria recordar, a este propósito, que toda a actividade ao ar livre de evasão e de contacto com a natureza havia sido até então totalmente enquadrada e controlada pelo Estado através de estruturas como a Mocidade Portuguesa ou a Legião, ou, quando muito, pela Igreja Católica, através dos Escuteiros. A criação do Clube de Campismo do Porto (CCP) nesse curto espaço do pós-guerra de maior abertura do regime (rapidamente esquecido por Salazar) , foi no entanto irreversível face à explosão do movimento campista ao longo da década de ’50. Por toda Europa se pratica o campismo e é igualmente crescente o número de turistas que, de “saco às costas”, nos visitam. É desta dinâmica que vai nascendo, dentro do espírito dos responsáveis do CCP, a ideia e a necessidade da criação de um parque de campismo no e do Porto. Curiosamente, mais do que um parque para os seus associados e para todos os praticantes de campismo da cidade, o clube pretende um parque vocacionado para os turistas, nacionais e estrangeiros, que desejam visitar e conhecer a cidade. E esta preocupação e antevisão do CCP revelar-se-á preciosa e de uma grande clarividência, como se perceberá adiante.

Mas, que espaço para tal parque? Entre as várias (poucas) hipóteses surge sempre como solução ideal a velha mata da Quinta da Prelada que aliava à sua luxuriante vegetação, uma invejável localização já que se situava dentro da cidade e era servida por óptimos acessos (a Estrada da Circunvalação, a Via Norte em construção...) e até por transportes públicos, uma vez que a carreira nº6 dos Serviços de Transportes Colectivos do Porto (de eléctrico até aos inícios da década de ’80 e posteriormente através de autocarros) ligava o centro da cidade até ao Monte dos Burgos, com paragem À porta da quinta.

Pertencente desde 1904 à Santa Casa da Misericórdia do Porto, por legado de D. Francisco de Noronha de Menezes, último senhor da Quinta da Prelada, esta mata encontrava-se de algum modo abandonada e tomada por uma vasta e densa vegetação. Em 1960, contudo, uma feliz coincidência torna exequível o arranque do projecto de um parque de campismo para aquele espaço. Com efeito, na sequência de uma reunião por um outro motivo, envolvendo o Presidente, António Medon, e outros dirigentes do CCP com o Inspector da Direcção-Geral de Saúde foi possível abordar e sensibilizar para a questão o então Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto. Tratava-se, afinal, da mesma pessoa: o Dr. Braga da Cruz que acabará por se entusiasmar pelo projecto, aprovando num curto espaço de tempo o relatório/proposta apresentado à Misericórdia pelo Clube de Campismo do Porto. Um grupo de trabalho/comissão de acompanhamento, do qual fazem parte vários dirigentes do clube e o arquitecto Moreira da Silva, indicado pela Santa Casa,  inicia desde logo os trabalhos de concepção  do novo parque, arrancando as obras ainda nesse mesmo ano de 1960. Em 17 e 18 de Junho de 1961 o CCP realizava na Prelada o seu tradicional acampamento da Primavera. Estava lançado aquele que durante muito anos foi classificado como um dos melhores parques de campismo europeus localizados no interior de grandes cidades. Para trás ficavam também algumas curiosas histórias. Como a do contratempo no arranque dos trabalhos de desmatação do grande matagal que cobria a Prelada. Tudo porque, entusiasmados com o projecto e com a possibilidade de, por fim, verem realizado um dos grandes sonhos do Clube, um número significativo de sócios organiza brigadas de trabalho voluntário. E para realizar o trabalho “nada melhor do que catanas”, propuseram os mais entusiastas que, de imediato, trataram de as encomendar a uma empresa do Porto. Ora, tal número de catanas, encomendadas por uma instituição que, apesar de tudo, continuava a ser suspeita aos olhos do regime, num momento crítico do início das guerras coloniais em África, fez com que a PIDE, a polícia política do regime, de imediato procedesse à sua apreensão e ao interrogatório a alguns dirigentes do pacífico Clube de Campismo do Porto. Clube que, ao longo dos anos, nomeadamente os primeiros, continuou muito ligado ao Parque de Campismo do Porto. No entanto, uma das regras que o CCP fez questão, em boa hora, de implementar na Prelada (e que ainda hoje se mantém em vigor) foi também factor para um gradual afastamento do clube dos destinos deste parque: a proibição da sua utilização a campistas residentes a menos de 30 quilómetros da cidade. Desta forma se conseguiu manter na Prelada a qualidade e o ambiente natural de um parque de curta estadia, evitando o desvirtuar do espírito campista que aconteceu no Parque de Monsanto em Lisboa, ou noutros parques urbanos, onde acabaram por nascer autênticas casas permanentes de fim de semana.

(Grande parte da informação histórica relativa à criação do Parque de Campismo da Prelada foi-me fornecida pelo Sr. António Medon, residente em Ramalde, à época Presidente do Clube de Campismo do Porto, a quem publicamente agradeço) .   

 

Rua de Santa Luzia

NA GÉNESE DO JORNAL DE RAMALDE

texto: Joel Cleto (in Jornal de Ramalde.3ª série, nº29. Porto, 8 de Novembro 2002, p.2)

 

Outono de 1989. Noite de domingo. Não obstante o frio, a chuva e a escuridão da rua, um após outro, num ritmo habitual há já alguns anos, os jovens vão chegando. A pé, de carro, sozinhos uns, outros em animados bandos. Do Carvalhido, da Prelada, de Francos, de Ramalde do Meio, de Pereiró, de Requesende, do Viso... de todos os cantos da freguesia. Ao longo dos últimos seis anos, quase sempre ao domingo à noite, este grupo de duas dezenas de jovens (às vezes menos, outras mais) havia já debatido, planeado e organizado um conjunto muito significativo de iniciativas que tinham marcado a freguesia e a cidade.

Nessa noite, face à proximidade da definitiva aquisição de uma sede, há muito ansiada, e à possibilidade de reforçarem a sua actividade, os jovens abordarão uma vez mais a possibilidade de avançar com um projecto sistematicamente adiado mas que, efectivamente, se tornará realidade alguns meses depois, em Outubro de 1990.

O projecto é o “Jornal de Ramalde”, o animado grupo a Comissão de Jovens de Ramalde, e a rua, para onde todos confluíam, a de Santa Luzia...

Embora todo o lado ímpar da artéria se localize na freguesia de Ramalde, a Rua de Santa Luzia pertence também, a nascente do cruzamento com a Rua do Monte dos Burgos, do seu lado par, à freguesia de Paranhos. As suas origens, seguramente rurais, uma vez que resultará do aproveitamento de antigos caminhos abertos entre matas e campos agrícolas, estarão  relacionadas, de resto, com a preocupação de ligar estas duas freguesias.

De facto, a rua de Santa Luzia era uma das principais vias de comunicação para quem de Ramalde, nomeadamente de aldeias como a de Ramalde do Meio ou Requesende, desejava deslocar-se à vizinha freguesia de Paranhos. Elucidativo desta realidade é, datado de 1904, o “Inventário” dos bens que D. Francisco de Noronha de Menezes, senhor da Quinta da Prelada, lega à Misericórdia do Porto. Com efeito no nº8 desse documento pode ler-se que “a Bouça de Fora, ou Monte dos Burgos, terra a mato (...) confronta do norte com caminho que vai da Rua do Monte dos Burgos para Paranhos, do sul com José Rodrigues Pereira, do nascente com Manuel Martins de Oliveira e do poente com José António Vaz.” Ou seja, ainda nos inícios do século XX (1904) aquele “caminho” era  conhecido por ir “para Paranhos”. Por essa altura aparentemente a rua ainda não tinha nome. Poucos anos depois, contudo, em 1912, este caminho já se designava Rua de Santa Luzia, como comprova um requerimento dirigido à Misericórdia do Porto por Joaquim Pereira da Silva que, morador nesta rua, pretendia comprar a já citada Bouça de Fora.

A explicação para a origem do nome desta rua estará relacionada com a existência, no seu extremo poente, no largo de Requesende, de uma capela. A toponímia contribuiu deste modo para adensar a sacralização daquele espaço, para onde conflui igualmente a rua da Senhora do Porto à qual, de resto, está consagrada a capela, entretanto elevada à categoria de igreja, desde a criação da paróquia de Nossa Senhora do Porto em 1964. A devoção a Santa Luzia possuía, aliás, uma longa e arreigada tradição na freguesia, estando bem documentada na segunda metade do século XIX e nos inícios do século XX a realização, na igreja paroquial, de festas e romaria em honra desta santa, durante o mês de Dezembro (cfr. António J. Gomes – “Viver em Matosinhos. 1850-1910”, no prelo). A memória litúrgica desta santa celebra-se, de resto, a 13 de Dezembro.

Comprovado historicamente desde o século V, o culto a esta santa conhece desde cedo uma grande adesão, existindo já no século VI mosteiros a ela dedicados em Siracusa e Roma. Nesta última cidade é mesmo erigida uma igreja em sua honra nos inícios do século VII. Segundo a lenda Luzia terá vivido nos finais do século III, vindo a falecer, martirizada, em 304 sob a governação do imperador Diocleciano. A sua “história” está repleta de aspectos recorrentes em muitas outras hagiografias, em torno das virtudes da virgindade cristã e do louvor ao desprezo pelos bens terrenos.

Natural de Siracusa, Luzia era uma jovem virgem que ter-se-á deslocado a Catânia com a sua mãe, gravemente enferma, até ao túmulo de Santa Águeda. Face à cura da sua progenitora a jovem converte-se definitivamente ao cristianismo e distribui os seus bens pelos pobres. Contudo, denunciada como cristã, é condenada a ir para um bordel. A sua resistência, na defesa da virgindade, é de tal forma que nem duas juntas de bois à qual é amarrada a conseguem arrastar. O martírio a que é submetida prossegue de modo cruel, tendo-lhe sido arrancados os olhos. Finalmente é degolada, segundo a lenda, no ano 304. As imagens desta santa representam-na, ocasionalmente, com uma junta de bois (alusão à primeira fase da sua “Paixão”), sendo no entanto mais corrente a sua figuração com um prato onde pousam os seus olhos. Também por esse motivo é esta santa considerada a patrona dos cegos.

Em Ramalde, contudo, Santa Luzia está associada, em virtude da rua que possui o seu nome, a outros episódios e a outros acontecimentos. Como o do nascimento do “Jornal de Ramalde”.

Foi com efeito nesta rua, no número 105, na residência do Engº Sampaio e Castro, que “provisoriamente” funcionou desde a sua fundação, em 1983, até Outubro de1990, a Comissão de Jovens de Ramalde, que contou entre os seus fundadores e dirigentes com os três filhos do engenheiro. Foi, assim, no piso térreo daquela casa que se conceberam e organizaram muitas das iniciativas que marcariam de forma indelével a vida cultural e associativa da freguesia da década de ’80 do século XX: a exposição documental e fotográfica “Ramalde Aqui Tão Perto”, a campanha em defesa da Quinta do Rio e da sua classificação como Imóvel de Interesse Público, a recuperação do Cantar das Janeiras, as várias edições da Festa Jovem, a organização e montagem dos Salões Internacionais de Banda Desenhada do Porto, os seminários e acções de sensibilização sobre a ribeira da Granja, e um sem número de tantas outras actividades... Não é este o espaço nem o momento para fazer a história desta, ainda jovem, associação. Mas não se pode deixar de referir, num artigo sobre a Rua de Santa Luzia publicado no “Jornal de Ramalde”, que também este nasceu da ideia, debate e organização dos muitos jovens que, semanalmente, se reuniam nesta rua, entre muita animação, anedotas, debate, definição de tarefas e distribuição de trabalho. Sendo, seguramente, injusto para os muitos nomes que ficarão esquecidos, a génese do “Jornal de Ramalde” fica associada a muitas noites de domingo de jovens como os irmãos Francisco, Luís e (mais tarde) Adriano Pizarro, Paulo Amorim, Sérgio Jacques, Paula Magalhães, Tuca, Joel, Viana, Paula Andrade, Carla, Quim Nogueira, Vítor Magalhães, Lourenço, Cristina, Antunes, Zé Augusto, Teresa Gradim, José Varela, António Medon, Helena, Paulo Jorge, Pedro Cleto, Gracinda, Carlos Augusto, Vítor Santos... na Rua de Santa Luzia.