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Nicodemos e Senhor de Matosinhos - um mito europeu
Nicodemos e Senhor de Matosinhos - um mito europeu

Permito a transcrição, no todo ou em parte, do texto que se segue, desde que citada a sua origem:

 

Joel CLETO - Nicodemos e o Senhor de Matosinhos – emergências de um mito europeu?. In V. O. JORGE & J. M. C. MACEDO (Orgs.), Crenças, Religiões e Poderes. Dos Indivíduos às Sociabilidades. Porto: Afrontamento, 2008. (col. “Biblioteca das Ciências Sociais/Antropologia; 13), p. 385-392. ISBN 978-972-36-0947-9

 

 

 

Nicodemos e o Senhor de Matosinhos – emergências de um mito europeu?

Nicodemus and The Lord of Matosinhos – emergences of a European myth?

 

Por: Joel Cleto

 

 

Summary:

From the end of the 11th century a legend appeared that would sweep across the whole Europe during the following centuries.  The emergence of the Holy Grail story, associated with chivalry and courtly love, so characteristic of this period, and of which "Parsifal" by Chrétien de Troyes is perhaps the most paradigmatic example, would enjoy a notable celebrity and dissemination/dispersion, to the extent that today it is considered as " one of the greatest adventures of western imagination” (Clarke 2003: 12).

Associated with the story of Joseph of Arimathea (who, according to the legend, kept the Holy Grail, the chalice of the Last Supper) the figure of Nicodemus also appeared at an early date, during the 12th  and 13th century. The tradition that Nicodemus, a biblical character closely associated with Christ's Passion, was a sculptor, transformed him into the patron saint of these artists during the Renaissance.

According to legend, the famous medieval statue of «Bom Jesus de Matosinhos» is attributed to Nicodemus. However this statue is from the transition from Romanesque to Gothic, between the last years of the 12th and the beginning of the 14th century. But is, also, very probably the oldest existing representation in Portugal of a crucified Christ in natural size, sculpted in wood.

According to the traditional narratives of the Western Mediterranean Europe, Nicodemus did not confine himself to sculpting a single statue of crucified Christ. As we shall see in this article, in PortugalSpain and Italy there are various sculptures of Christ in Majesty among others that are attributed to him: and they are the emergence of a European myth.

 

 

 

Nos finais do século XI surge uma lenda que irá varrer toda a Europa durante os séculos seguintes. Associada a romances de cavalaria e de amor cortês, tão característicos desta época, a emergência da história do Santo Graal, de que "Parsifal" de Chrétien de Troyes e de Wolfram von Eschenbach (já na transição do século XII para o XIII) é talvez o exemplo mais paradigmático, conhecerá, com efeito, uma celebridade e divulgação/dispersão verdadeiramente notáveis, contribuindo para que hoje seja considerada como "uma das maiores aventuras da imaginação ocidental" (Clarke 2003: 12) e que continue, no presente, a influenciar muita da fantasia do ocidente (veja-se o recente e estrondoso sucesso comercial da obra de Dan Brown “O Código Da Vinci” ) e a alimentar imensas “seitas” esotéricas.

 

É associado à história de José de Arimateia (que segundo a lenda terá guardado o Santo Graal ‑ o cálice da Última Ceia) que, desde cedo, ainda durante o século XII e no seguinte, terá surgido também a figura, igualmente bíblica, de Nicodemos (Goering 2003). O facto de ambos terem sido os últimos homens a ter contacto com o corpo de Cristo, fez com que Nicodemos tenha sido, segundo os seus hagiógrafos, um privilegiado possuidor e "fazedor" de relíquias. Tal característica fez mesmo com que lhe tenha sido atribuído um evangelho apócrifo (o "Evangelho de Nicodemos") que narra de forma detalhada as suas actividades desde a Paixão à Ressurreição de Cristo.

Não obstante a ligação de Nicodemos, desde o século XII, a José de Arimateia e à lenda do Graal, a tradição que o identificava como escultor em madeira e autor de imagens de Cristo era contudo, na Europa ocidental, mais antiga. E a sua associação a relíquias, nomeadamente representações artísticas de Jesus (inicialmente apenas em ícones e pinturas), está já documentada, como veremos adiante, pelo menos desde o século IX.

Numa época em que as relíquias, principalmente as que se relacionam de um modo directo com a Paixão de Cristo, são cada vez mais valiosas e se iniciam as "demandas" em sua busca, em associação com o espírito das Cruzadas, facilmente se perceberá da celebridade e divulgação que, desde o século XII, conhecerão estas lendas e as relíquias que lhes estão associadas. E, do mesmo modo, se perceberá como um pouco por toda a bacia do Mediterrâneo ocidental nos surjam imagens e lendas atribuídas e relacionadas com Nicodemos. A própria versão da lenda da Imagem do Bom Jesus de Matosinhos fala‑nos de quatro outras imagens "irmãs", efectivamente existentes, em Ourense e Burgos, em Espanha; Luca, na Itália; e ainda de uma outra presumivelmente oriunda de Berito na Síria ‑ a actual Beirute, no Líbano. Contudo, como indicaremos adiante, conhecem-se vários outros exemplos de famosas e lendárias imagens associadas a Nicodemos.

Este fundo lendário, e as suas origens temporais, são, obviamente, factores a ter em conta quando, como é o nosso caso, se estuda e pretende datar a Imagem e a própria lenda do Senhor de Matosinhos. Tanto mais que está bem documentada a popularidade que estas lendas possuíram em Portugal desde o século XII ao XIV – o período que, como já abordamos em anteriores trabalhos (Cleto 2004 e 2007), coincide muito presumivelmente com o surgimento desta Imagem em Matosinhos.

Não é este o espaço para abordar o impacto e a grande voga que teve no nosso país o ciclo do Santo Graal (para tal consultar, entre outros, Saraiva 1996: 58-73, Pereira 2004. 99-104). De qualquer modo vale a pena recordar que este ciclo do Graal era composto por três “partes”: a Estória de José de Arimateia (Josep Abarimatia), a Estória de Merlim, e a Demanda do Santo Graal, e que de todos eles sabemos existir traduções, em Portugal, nos inícios do século XIV. De resto, desse mesmo século, algumas versões castelhanas da Demanda demonstram, inequivocamente, terem sido feitas a partir de versões portugueses que poderão datar ainda do século XIII. A popularidade destas obras no nosso país é também visível no facto dos livros apresentarem um elevado grau de  “uso” por serem muito lidos e desfolhados. Seriam também assiduamente transportados de um lado para o outro, provavelmente por trovadores que se deslocavam de um paço para outro, de um castelo para outro palácio, da corte para uma outra qualquer residência senhorial, alimentando com as suas leituras os serões dos senhores e das suas famílias E por isso se justifica também que estas obras fossem repartidas por vários volumes, mais leves e portáteis.

Não deixa de ser igualmente sintomática a referência da “Crónica do Condestrabe de Portugal” (1433) que afirma que o jovem Nun’Álvares Pereira “usava muito de ouvir e ler livros de estorias, especialmente usava mais ler a estoria de Galaaz em que se continha a soma da Távola Redonda”. E também Fernão Lopes narra, na “Crónica de D. João I”, que os guerreiros deste monarca, gracejando, se comparavam a Galaaz, a Tristão, a Lançarote, e outros companheiros da Távola Redonda.

 

Mas, regressemos a Nicodemos.

Descrito no "Evangelho de João" como um dos líderes (João 3:1) e professor dos judeus (João 3:10), Nicodemos é apresentado igualmente, segundo alguma tradição mais tardia, como um dos doutores com os quais Jesus se encontrou no templo de Jerusalém aos doze anos (episódio narrado em Lucas 1: 41‑ 52).

Nicodemos está, igualmente, no centro de um dos mais famosos diálogos do "Novo Testamento" quando, durante uma noite, se reúne com Cristo (João 3:1‑21). É desse encontro a emblemática e profética frase de Jesus "Porque Deus amou de tal modo a humanidade que lhe entregou o seu Filho único, para que todo o que nele acreditar não se perca, mas tenha a vida eterna" (João 3:16).

A morte e Paixão de Cristo terão, aliás, em Nicodemos uma testemunha privilegiada. Antes, ainda, voltaremos a encontrar esta personagem defendendo, entre os fariseus, que Jesus deveria ser ouvido antes de ser condenado (João 7: 45‑52). Mas é, efectivamente, nos momentos que se seguem à crucificação que Nicodemos terá um papel de relevo, pelo menos na origem do que a tradição lhe virá a atribuir e que interessa ao nosso estudo. Com efeito, depois de José de Arimateia, seguidor “secreto” de Jesus, ter obtido de Pilatos a permissão para o sepultar (Marcos 15: 42‑47), Nicodemos irá auxiliá‑lo nessa tarefa, retirando o corpo de Cristo da cruz, envolvendo‑o em panos e em perfumes, mirras e aloés que havia trazido (João 19: 38‑42).

Eis, portanto, o que, segundo os escritos canónicos, se conhece de Nicodemos. A tradição e os evangelhos apócrifos irão contudo, nos séculos seguintes, dar outro tipo de protagonismo a esta personalidade. Com efeito, e como já referimos, o facto de ter sido uma das últimas pessoas a contactar com o corpo de Cristo, fez com que Nicodemos tenha sido, segundo os seus hagiógrafos, um privilegiado possuidor e "fazedor" de relíquias, e uma personagem central dos últimos dias de Cristo, na sequência dos quais lhe é atribuído um evangelho apócrifo (o "Evangelho de Nicodemos", também designado por "Actos de Pilatos"), na realidade redigido no século IV, que narra de forma circunstanciada as suas actividades desde a Paixão à Ressurreição de Jesus.

Esta tradição de Nicodemos como "fazedor" de relíquias (propositadamente não utilizamos, ainda, o termo escultor pelos motivos que seguidamente se expõem) fará com que ele se encontre no centro de um dos primeiros e mais famosos debates do cristianismo: a Controvérsia Iconoclasta, que levará mesmo à realização, em 787, de um concílio em Niceia, que durará mais de um mês. No fundo, o que estava em debate é se se deveria aceitar, ou não, a devoção e veneração a ícones e imagens de Cristo e dos santos.

A tese que acaba por triunfar ‑ a da aceitação das imagens ‑ teve num famoso sermão atribuído a Santo Atanásio um dos principais argumentos. Ora, neste sermão, é narrado um milagre ocorrido na cidade, então, síria de Beirute, segundo o qual um ícone pintado de Cristo é esquecido por um cristão numa casa posteriormente habitada por um judeu. Este, juntamente com um grupo de amigos, imita sobre a pintura o martírio da crucificação, pregando cravos nas mãos e pés da imagem e trespassando‑a com uma lança. Miraculosamente, da pintura sai sangue e água que, recolhida, se revela ser possuidora de características milagrosas, proporcionando diversas curas e a conversão de grande número de judeus.

Este milagre, narrado em Niceia no século VIII, e então redigido em grego, será reescrito em latim no século seguinte, a pedido do Papa João VIII, pelo seu secretário Anastasius Bibliothecarius. E é aqui que Nicodemos nos volta a aparecer. Com efeito, a tradução de Anastasius inclui um detalhe que não aparece no texto original, mas que terá sido recolhido da tradição local síriocristã (Goering 2003: 74): fora Nicodemos quem havia pintado a milagrosa imagem!

A tradição de Nicodemos como protagonista privilegiado da Paixão e Ressurreição de Cristo, assegurada como já vimos desde o século IV pelo Evangelho apócrifo com o seu nome, é assim reforçada na Europa Ocidental, a partir do século IX, pela versão latina do milagre de Beirute redigida por Anastasius. Mas esta versão acarretaria a curto prazo outros "desvios" em relação à história original e oriental. Com efeito a apresentação de Nicodemos como pintor de ícones de Cristo, não se adaptava ao contexto artístico da Europa Ocidental, nomeadamente mediterrânica, mais vocacionado para a representação de imagens esculpidas. Nascia, assim, a fama de Nicodemos como o primeiro cristão escultor e, provavelmente, o início do aparecimento de imagens/ relíquias que lhe seriam atribuídas. A tradição de que Nicodemos era escultor, transformá-lo‑ia, de resto, no santo patrono destes artífices durante o Renascimento (Schleif 1993).

Nicodemos não se limitou, no entanto, segundo as narrativas tradicionais da Europa do Mediterrâneo Ocidental a esculpir uma única imagem de Cristo crucificado. Como veremos são várias as esculturas de "Cristos‑Majestades" que lhe são atribuídas, entre outros, em Portugal, Espanha e Itália. Curiosamente é, no entanto, a lenda do Senhor de Matosinhos a única que "assume" a existência de, pelo menos, quatro outras imagens "irmãs" (sobre este tema ver, também, Cleto & Lago 2004)

Esta versão erudita da lenda do Senhor de Matosinhos, e a sua larga divulgação e penetração nas versões orais e mais populares, deve‑se fundamentalmente à obra, datada da primeira metade do século XVIII, de Cerqueira Pinto, História da Prodigiosa Imagem de Christo Crucificado que com o título de Bom Jesus de Bouças se venera no lugar de Matozinhos, na Luzitania, na medida em que este é o primeiro grande estudo monográfico dedicado à origem e história desta imagem (Pinto 1737), pese embora o autor referir, em anotações laterais ao texto, outras obras que lhe serviram de fonte, com destaque para um livro de Pedro de Mariz (1609). Segundo Cerqueira Pinto,

 “Saõ (da autoria de Nicodemos) quatro Imagens: a de Berito na Syria: a de Luca em Italia: a de Burgos em Castelia, e a de Matozinhos na Lusitania.

“Supposto que ao mesmo artificio de Nicodemus, se atribua tambem a Imagem de Christo Crucificado, que se venera na Catedral de Orense em Galiza” (Pinto 1737: 59-60).

Partindo deste mito e do que, efectivamente, na actualidade se conhece nos locais citados, a primeira grande conclusão a retirar é que, desde logo, existem de facto nestes lugares imagens atribuídas a Nicodemos, envoltas em lendas que apresentam muitos aspectos e pormenores semelhantes:

 

- O Bom Jesus de Matosinhos

Segundo a lenda, esta imagem foi esculpida por Nicodemos que, fugindo aos judeus, a lançou ao mar. Cruzado o Mediterrâneo, ultrapassado o estreito de Gibraltar, e após penetrar no Atlântico, foi encontrada na praia do Espinheiro, actual praia de Matosinhos, sem um braço, tendo sido recolhida no Mosteiro de Bouças. Anos depois uma mulher, que apanhava lenha para casa, encontrou um madeiro que não ardia quando lançado ao fogo e que se verificou posteriormente ser o braço da Imagem.

Localizada no altar-mor da igreja de Matosinhos, esta imagem é ladeada por representações de Nicodemos e de José da Arimateia.

A devoção a esta imagem, associada a múltiplos milagres, é muito antiga, havendo provas documentais de peregrinos ao Santo Crucifixo de Bouças (sua designação primitiva) já na primeira metade do século XIV, devendo a imagem datar, pelo menos, do século anterior. Trata-se, de resto, de uma imagem da transição do românico para o gótico e é, muito provavelmente, a mais antiga escultura existente em Portugal de um “Cristo-majestade” (Cleto 2004 e 2007, Barroca 2002).

 

- Santo Cristo de Burgos

Também, segundo uma lenda, elaborado por Nicodemos, este Cristo foi recolhido no alto mar por um mercador de Burgos que corria risco de naufrágio. Trouxe‑o para a cidade e entregou‑o aos frades do convento de S. Agostinho.

Permaneceu naquele convento até 1835, ano em que os religiosos o abandonaram devido à legislação liberal que motivou a venda dos bens pertencentes às instituições religiosas. A imagem foi então trasladada para uma capela situada na nave direita da catedral, onde permanece. Este Cristo está associado a uma grande devoção em Burgos, ocupando-se uma Confraria de alimentar a piedade popular (Cleto & Lago 2004; López Martinez 1997).

A forma e o material em que foi esculpido (madeira coberta a pele) conferem‑lhe o aspecto de um cadáver e insere-se perfeitamente nas estratégias e tipologias góticas: feridas e sangue abundantes; barba, cabelos e unhas naturais; cabeça e mãos articuladas.

 

-Il Santo Vulto de Lucca

Esta imagem, conhecida por "Vulto Santo", é um relicário e, segundo a lenda, foi esculpida por Nicodemos que, quase à hora de sua morte, a entregou a Isacaar, homem justo e temente a Deus, que a guardou num subterrâneo para evitar que fosse roubada pelos judeus. Aí terá sido venerada durante 600 anos. Então, um bispo, a quem um anjo apareceu dizendo‑lhe onde a cruz se encontrava, achou que a deveria tirar da terra dos infiéis. Para isso colocou‑a juntamente com 2 ampolas de sangue de Cristo, recolhido por José de Arimateia, num barco bem calafetado, sem tripulação nem velas, que foi posto a navegar sem destino a partir do porto de Giaffa.

O barco foi dar à costa ao porto de Luni, perto de Luca. Maravilhados com o aparecimento da relíquia, ambos os povos destas localidades a disputaram. Para resolver o problema, o bispo mandou‑a colocar num carro de bois determinando que ela se guardaria onde os bois parassem o que aconteceu em Luca. Para terminar a contenda, o bispo ordenou que em Luni ficasse uma das ampolas do sangue de Cristo, compensando desse modo os fiéis dessa localidade. O Santo Vulto foi posto à veneração na Igreja de S. Martinho de Luca (Cleto & Lago 2004: 81).

 

Cristo de Ourense

No séc. XIV, Vasco Perez Mariño, natural de Finisterra, quando foi tomar posse do cargo de bispo de Ourense, levou consigo uma imagem que, segundo uma lenda, fora recolhida no mar por uns marinheiros e que teria sido esculpida por Nicodemos. É um Cristo gótico, moribundo, doente e esgotado. Trata‑se de uma imagem de marcado realismo (o cabelo e a barba são naturais, o que deu lugar à crença popular de que lhe crescem).

Outra tradição revela‑nos que no interior da chaga se encontra um pedaço da corda com que prenderam Jesus, o que a tornaria uma imagem relicário.

Este Cristo está guardado numa capela da catedral de Ourense (Cleto & Lago 2004: 81).

 

Cristo de Beirute/Balaguer

O texto de Cerqueira Pinto refere que uma das imagens estaria em Berito, na Síria, a actual Beirute, capital do Líbano, país que se desmembrou da antiga Síria. Embora nessa cidade não se encontre actualmente qualquer imagem, existe uma surpreendente lenda na Catalunha que nos lança algumas pistas extremamente interessantes.

Segundo essa lenda, uma imagem, que Nicodemos fizera de Cristo, revelara tanta perfeição que mesmo Maria e os apóstolos a reverenciaram. Durante umas perseguições aos judeus foi trasladada de Jerusalém para Beirute e ali escondida em local secreto onde era venerada pelos cristãos. Quando estes tiveram de fugir encerraram a imagem num armário. A casa em que esta se encontrava foi comprada por um judeu ‑ Eleazar ‑ que, mais tarde, para evitar uma acusação de ser cristão, feita por um grupo de judeus que ali fora a uma festa, a açoitou e lhe cravou um punhal no peito. O sangue que brotou da ferida curou alguns dos presentes e converteu todos. A imagem foi levada para a sinagoga de Beirute que se tornou assim um templo cristão.

Quando os árabes invadiram Beirute a imagem foi novamente lançada ao mar. Chegada à foz do rio Ebro, subiu‑o contra a corrente, entrou no Segre e parou em Balaguer. Aspessoas do lugar como não conseguiam tirar a imagem do rio chamaram as irmãs Clarissas. A abadessa com muita devoção pegou na imagem e levou‑a às costas até ao templo onde hoje se venera e que foi construído no lugar da antiga mesquita.

Durante a guerra civil espanhola, um incêndio na igreja reduziu a relíquia a cinzas tendo‑se salvo apenas o pé direito, que foi colocado na nova imagem esculpida por Joaquin Rós, em madeira da Flandres (Cleto & Lago 2004: 81-82; Luque Riz 2005).

 

- Outras imagens

Como referimos anteriormente, as imagens atribuídas a Nicodemos de "Cristos Crucificados", esculpidas em madeira e em tamanho natural, não se esgotam nas que são referidas pela Lenda do Senhor de Matosinhos. Há, com efeito, outros casos, como o Cristo de Finisterra que está guardado na igreja de Santa Maria de Áreas, na Galiza; o Cristo da Igreja de San Domenico, na povoação de Chioggia, na Lagoa de Veneza, em Itália; o Cristo de San Pedro de Marchena, em Espanha; o Santíssimo Cristo na igreja do Salvador em  Valência , também em Espanha; o Cristo de Nicodemo da igreja de S. Francisco, em Oristano, na ilha da Sardenha; e o Cristo do Santuário do Santíssimo Crucifixo em Numana (Ancona), em Itália. 

 

Não deixam de ser surpreendentes as grandes semelhanças que existem entre as lendas. Independentemente do "tronco comum" (imagens de Cristo, esculpidas por Nicodemos, e transportadas por ou pelo mar), apresentam igualmente diversas parecenças entre si. Neste contexto é de destacar a grande analogia entre a lenda original da Imagem de Beirute apresentada no Concílio de Niceia, no século VIII, e a lenda do Senhor de Balaguer e do Vulto Santo de Lucca. Da mesma forma que, para dar mais um exemplo entre tantos outros possíveis ‑ das semelhanças e "coincidências”, não deixa de ser interessante que a festa da imagem de Luca seja a 3 de Maio, a data em que, segundo a tradição, apareceu na praia a Imagem de Matosinhos. E que, sintomaticamente, é também, no calendário religioso, o Dia da Invenção da Cruz (o dia em que Santa Helena supostamente (re)descobriu em Jerusalém a cruz na qual Cristo havia sido crucificado). 

Na sua generalidade, com excepção para a imagem de Lucca, presumivelmente mais antiga, todas as imagens parecem datar, tipológica e estilisticamente, dos finais do século XIII e da centúria seguinte. Estamos assim perante imagens que se incluem nas estratégias e espiritualidade góticas. Neste contexto não será igualmente uma mera coincidência o facto das lendas ou, mesmo, das interpretações históricas, nos revelar que em quase todas as imagens houve uma acção decisiva por parte de bispos. Recordemos que, na época gótica os bispos assumem uma maior importância e um papel mais relevante, não só na vida religiosa, mas também administrativa das localidades (Barroca 2002: 15‑17).

 

Independentemente de todas as variáveis estamos, igualmente, ao contemplar estas imagens, perante os vestígios materiais de um mito que varreu a Europa Ocidental há já quase um milénio e que, revestido de mil e uma formas, religiosas, fantásticas, esotéricas, fabulosas, persiste em emergir na actualidade.

 

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